sexta-feira, 28 de abril de 2017

Ilíada - Edições, leitura e releituras.

Para amantes da literatura, da História e da Grécia Antiga, a Ilíada é referência. Obra de grande impacto, sendo um clássico da literatura universal, os escritos de Homero, ou atribuídos a ele, continuam a despertar paixões e uma legião de ávidos leitores, sendo ainda hoje um espelho dos ímpetos humanos em suas trajetórias individuais e coletivas. Com o intuito de ajudar os interessados, alunos, professores e demais curiosos, apresento as mais recentes traduções e edições da Ilíada em português, breve considerações e o início do canto I de cada edição com o objetivo de mostrar as diferenças entre as traduções.

Rafael Dantas
Historiador - Universidade Federal da Bahia.

Ilíada, Homero. Tradução: Odorico Mendes.
Ateliê Editorial/Editora Unicamp.

Ilíada, Homero. Tradução: Odorico Mendes (1799 – 1864) 
Editora: Ateliê Editorial/Editora Unicamp.

Tradução direta do grego do século XIX de cunho erudito e rebuscado com uma sonoridade mais explícita. Foi durante décadas referência da obra no Brasil. Por ser mais rebuscada trazendo alguns termos romanos, como Jove (Zeus) e ressaltar a sonoridade dos versos gregos, a leitura para iniciantes, pode parecer difícil, mas nada que dificulte a contemplação da obra. Além de possuir um acabamento elegante, sóbrio com linhas clássicas, é uma das mais bonitas e bem acabadas edições no mercado. Mendes, além de poeta e importante tradutor, também foi político. Nasceu em São Luiz do Maranhão. 

Canto I

“Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
O de homens chefe e o Mirmidon divino...”

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Ilíada, Homero. Tradução: Carlos Alberto Nunes.
Nova Fronteira.

Ilíada, Homero. Tradução: Carlos Alberto Nunes (1897 – 1990)
Editora:Nova Fronteira.

Tradução de meados do século XX em versos direto do grego claramente mais explicativa, com agradável apresentação narrativa lembrando uma "prosa ritmada", como diz Haroldo de Campos¹. A edição mostra um acabamento moderno evocando o Cavalo de Troia na capa - que não aparece no livro e sim na Odisseia e na Eneida - sobre tonalidade que passa a aparência de antigo, ou pode fazer alusão a terra, solo, as batalhas travadas ao longo do conflito entre gregos e troianos. Importante destacar que o livro compõe o box juntamente com a Odisseia, em capa azul, fazendo referência as viagens de Odisseu. Carlos Alberto Nunes foi um literato maranhense, poeta, médico formado pela antiga Faculdade de Medicina da Bahia, sendo um dos maiores tradutores brasileiros, legando para o português além das obras de Homero, Platão, Virgílio, e o teatro completo de Shakespeare.

Canto I

“Canta-me a Cólera - ó deusa! – funesta de Aquiles Pelida,
Causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta
e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos
e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados
e como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio
desde o principio em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos,
o de Atreu filho, senhor de guerreiros, e Aquiles divino.
...”

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Ilíada, Homero. Tradução: Haroldo de Campos.
Benvirá.

Ilíada, Homero. Tradução: Haroldo de Campos (1929 – 2003)
Editora: Benvirá.

Tradução do final do século XX buscando a métrica grega recuperando os "diversos planos formais do poema"², segundo o Dr. em literatura grega da Universidade de São Paulo, Trajano Vieira. Belíssima edição em dois volumes trazendo elementos artísticos com traços greco-romanos em sua capa. O texto se aproxima da tradução do Odorico Mendes com termos gregos com um cunho rebuscado, no entanto faz uma série de correções e melhoramentos. O paulista Haroldo de Campos foi poeta e um grande tradutor brasileiro, lecionando na PUC de São Paulo e em Austin no Texas, EUA.

Canto I

“A ira, Deusa, celebra do Peleio Aquiles,
o irado desvario, que aos Aqueus tantas penas
trouxe, e incontáveis almas arrojou no Hades de
valentes, de heróis, espólio para os cães,
pasto de aves rapaces: fez-se a lei de Zeus;
desde que por primeiro a discórdia apartou o
Atreide, chefe de homens, e o divino Aquiles...”

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Ilíada, Homero. Tradução: Frederico Lourenço.
Penguin.



Ilíada, Homero. Tradução: Frederico Lourenço. (1963 - ) 
Editora: Penguin/Companhia das Letras.

Tradução de 2005 em versos livres e mais acessíveis. Das três traduções apresentadas essa é a de mais fácil leitura. Os termos utilizados são próximos a maioria dos leitores, se afastando de um rebuscamento narrativo, para apresentar o texto de forma mais acessível e direta. Trabalho gráfico simples, mas harmônico, como em outros livros da Penguin. Lourenço é um escritor português, tradutor e especialista em línguas clássicas, atualmente professor na Universidade de Coimbra.

Canto I

“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles...” 

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Referências e indicações:

¹ e ² A Ilíada de Haroldo. em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs25049903.htm

Homero. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. Penguin/Companhia das Letras.
http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/85050.pdf
Homero. Ilíada. Tradução Odorico Mendes. Ateliê Editorial.
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/iliadap.pdf
A Ilíada de Haroldo. Entrevista
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs25049903.htm
Trajano Vieira. Ilíada Recriada. Revista USP, São Paulo 2001.
Tida Carvalho. Haroldo de Campos: Traduttore, Traditore? Sobre a Tradução da Ilíada. ZUNÁI – Revistaa Et debates. 
http://www.revistazunai.com/ensaios/tida_carvalho_haroldodecampos.htm


quinta-feira, 30 de março de 2017

Salvador – Crônica de uma expressividade urbana, entre o antigo e o moderno.

fotografia aérea de Salvador em 1959 exibe uma cidade enraizada por seus vales ainda com predomínio do verde e áreas cobertas por dunas na região de Itapuã. Infelizmente grande parte do verde e boa parte das dunas não existe mais.

Cidade do Salvador da Bahia em 1959/2013. Aerofoto com imagem do Google Maps. (Clique para Ampliar)
Reprodução feita por historiador Rubens Antonio.
Rafael Dantas.
Historiador*

Em 1959 a Cidade da Bahia, como era conhecida Salvador, tinha ares de uma modernização marcante acentuando pouco a pouco novos marcos ao lado dos antigos conjuntos de casarios e igrejas existentes. Ao mesmo tempo a voraz sede pelo novo, juntamente com o descaso e interesses vigentes, ajudou a desmantelar antigos resquícios arquitetônicos na urbe, repleta de sobrados no centro antigo e cidade baixa, solares imponentes como o Amado Bahia na Ribeira (inaugurado em 1904), e palacetes no Campo Grande, Vitória e Graça, como o Martins Catharino (1912), muitos arruinados e demolidos nas décadas seguintes. Suas ruas, vielas, avenidas, travessas e ladeiras, ganharam décadas depois a companhia de construções com um novo rigor estético, contrastando com o colonial, neoclássico e eclético de suas fachadas. Nesse afã por uma modernidade, na tentativa de acompanhar o progresso da região sudeste, e sanar os atrasos que atormentavam as mentes das elites politicas e econômicas da Bahia, muito foi demolido e grande parte do que foi construído enterrou elementos significativos da memória urbana.

Ao passo que novas avenidas rasgaram os vales, como a Centenário em 1949 no governo Otavio Mangabeira (1947 – 1951), seguindo os planos de Mario Leal Ferreira e o EPUCS, novos ícones arquitetônicos como a Fonte Nova (inaugurada em 1951), Edifício Caramuru (1946) no Comércio – esse ainda com vários casarões das primeiras décadas do XX – e o Hotel da Bahia, projeto do arquiteto baiano Diógenes Rebouças e Paulo Antunes Ribeiro (inaugurado simbolicamente em 1951), surgiam como expressividade de uma Salvador moderna que ainda dialogavam com certo equilíbrio com seu entorno antigo.

O Hotel da Bahia, atual Sheraton - Bahia, visto do Passeio Público na década de 50. O moderno bailando entre o antigo. Podemos notar os casarões que ladeavam o prédio projetado por Rebouças. Hoje a vista foi coberta pelos prédios residenciais construídos em volta.
Imagem: Guia Geográfico - Salvador. 


Nos anos seguintes com o expressivo crescimento de Salvador novos contornos passam a ser delimitados. O centro, já sufocado, mas ainda referência comercial, política, e claro, religiosa, ícone com suas seculares construções, algumas demolidas, como a Sé em 1933 e a Igreja de São Pedro Velha para construção da Avenida Sete de Setembro em 1913 (Governo J.J. Seabra), e os prédios símbolos do poder como o palácio do governo, Rio Branco, e o palácio da Aclamação, residência do governador na época (até o final da década de 60), ainda eram referências administrativas e políticas, símbolos pulsantes juntamente com os comércios dessa parte da cidade.

Seguindo a ótica de expansão e modernização urbana ao lado de uma política de “modernização conservadora” como lembra o cientista político Paulo Fábio Dantas, Antônio Carlos Magalhães (ACM), na época prefeito de Salvador em 1967, em seguida governador em 1971, iniciou um extenso projeto de abertura de avenidas nos vales, como o Vale do Canela em 1974 e Barris em 1975, dando continuidade a ideia de Leal Ferreira e o EPUCS. A Cidade, ainda concentrada no antigo centro, passa nos anos posteriores a ter novos polos econômicos, residenciais e de lazer. Uma atenção significativa é voltada para a preservação do Centro Histórico, ações marcantes para todo o conjunto de casarios e igrejas, e o sítio é declarado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1985. A Avenida Paralela, tão criticada na época de sua construção (década de 70), iria se tornar uma das principais vias de escoamento para essa “nova” cidade que estava se desenvolvendo juntamente com o Centro Administrativo da Bahia, cravado no meio da mata. Ao lado dessa modernização e expansão populacional, com a mais de 640.000 mil habitantes na década de 60 e mais de 1.000.000 em 70, Salvador da Bahia unia elementos seculares, símbolos de suas tradições e recortes de uma Bahia antiga, decadente em seus palacetes, como lembra Kátia Mattoso em “Bahia uma província do Império”, e “destronada”, segundo Rinaldo César Leite em “A rainha destronada”. Caminhava bailando ao lado de novos traços modernos que aos poucos contornavam os espaços que estavam sendo construídos e outros modificados.

Nesse ritmo de crescimento, assim como em outras grandes cidades do Brasil, a volúpia pelo moderno juntamente com as perspectivas seguidas na época, mostravam sinais do caótico na locomotiva das transformações urbanas de Salvador. Aos poucos as áreas verdes foram sendo progressivamente devastadas, sucumbidas áreas históricas, zonas de dunas, rios e nascentes. Da vastidão verde que cobria boa parte do território soteropolitano em 1959, em 2013 data da segunda imagem, observamos ilhas de vegetação constantemente ameaçada por projetos que levam o nome de Green, Hortos e Parcs, ícones em aço e concreto, “paraísos” ladeados pelo caos urbano, e uma extensão de ocupações das mais variadas cobrindo grande parte do território do miolo em direção aos limites da Cidade. Centenas de palacetes e sobrados, de importante valor arquitetônico, retratos impregnados da história do povo da Bahia e das influências da época em que foram erguidos, dos seus residentes e das mãos que os construiu, foram demolidos e substituídos por prédios que tentaram ressaltar a dita modernidade do imobiliário soteropolitano, cortinas de concreto como no Corredor da Vitória. Das dunas, um sopro de ignorância, levou e continua levando, boa parte dessas areias que já encantaram Caymmi e Vinicius de Moraes. Engolidos, aterrados e poluídos, a maioria dos rios que já cortaram Salvador, alguns já poluídos nas primeiras décadas do XX, como apontou Teodoro Sampaio em uma época em que a cidade tinha em média 250.000 habitantes, hoje são córregos saturados de dejetos e cobertos por vias que em nada faz lembrar as descrições antigas de uma Salvador reconhecida por suas águas e "mil" fontes.

Recorte da Fotografia de Pierre Verger. Navegantes - 1949.
Imagem Encontrada em: besidecolors.

A comparação de uma fotografia aérea de Salvador em 1959, com uma de 2013, e outra em seus 468 anos de fundação, evidencia que temos muito o que aprender, analisar, planejar e tentar solucionar os problemas ainda existentes, buscando um equilíbrio entre crescimento e preservação. Pensar uma Cidade da Bahia com mais sensibilidade ambiental e consciência histórica, levando em consideração seus símbolos, a realidade do seu povo e seu entorno. Essa análise iconográfica evidencia uma miscelânea de ações, com inevitáveis permanências, alterações e perdas, que podem se intensificar se não observarmos a poesia que ainda resta na expressividade dos contornos da velha e moderna Salvador, essa ainda protegida por Todos os Santos.


*Historiador pela Universidade Federal da Bahia. Pesquisador voltado ao estudo das transformações urbanas e arquitetônicas na iconografia da Cidade do Salvador no século XX.


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Primeira imagem: Integração de várias aerofotos feita pelo Historiador Rubens Antônio. E imagem de satélite do Google.

Entrevista sobre os 468 anos da Fundação de Salvador com a repórter Anna Valéria (disponível aqui)

Referências e indicações:

MATTOSO, Katia. Bahia, século XIX: uma província do Império. Editora Nova Fronteira, 1992. Introdução.

LEITE, Reinaldo Cesar Nascimento. A rainha destronada. Discurso das elites sobre as grandezas e os infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas. UEFS, 2012.

VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Salvador: Transformações e Permanências (1549-1999). Ilhéus: Editora Editus, 2002.

NOGUEIRA, Rita de Cásia Cordeiro. Saneamento da cidade de Salvador – de 1850 a 1925. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Persistência da Intolerância: A tristeza de uma campanha eleitoral.

George Grosz - Explosion. 1917.
Imagem: Museum of Modern Art (Moma)
Texto Rafael Dantas.
História. Universidade Federal da Bahia.
 
Arrependo-me de não ter escrito e publicado esse texto antes, afinal o que me motivou foi o deplorável “debate” que presenciei em um grupo no facebook um dia antes das eleições no 2° turno. Mesmo assim publico-o com a doce esperança de instigar a reflexão em alguns, nessa reta final ou em qualquer outro momento, onde a intolerância se faz presente. 

Realmente é interessante observar (deplorável levando em consideração alguns constantes comentários presentes nessa rede social) como os que se dizem defensores “disso e daquilo” e de outras tantas liberdades, tratam aqueles que pensam diferente dos demais. E como vários estão despreparados para conviverem em sociedade.

Respeito, tolerância, liberdade de expressão, um bom diálogo, onde estão?
 
O que vi em menos de um mês foi um verdadeiro espetáculo de horrores, onde são claras as demonstrações carregadas de um instinto de violência extrema e falta de educação medonha, que se fossem transladadas para o diálogo ao vivo poderiam significar atos de total covardia, onde provavelmente sangue seria derramado sob a justificativa débil de defender candidatos, alçados a categoria de santos, e seus respectivos projetos políticos.
 
Estaríamos discorrendo com bobas crianças? Adolescentes rebeldes em plena puberdade na ânsia para usar suas emoções ao bel-prazer? Ou estamos conversando com cidadãos conscientes que vivem em uma sociedade democrática (e ressalto isso), por mais que não pareça em determinadas situações, onde a diversidade sempre existirá!
 
Na busca pelo espetáculo gratuito e pelo menosprezo do outro a humanidade já fez horrores, vejo que em pleno o século XXI, em um espaço virtual, a história se repete. Fora dele os horrores continuam existindo. Envergonha-me ver várias pessoas das mais diversas áreas se comportarem como quase ditadores que não perdem a chance de impor sua opinião e seus apaixonados argumentos, expondo a sede pela barbárie e aviltamento presente em escritos e falas lastimáveis.
 
Quem prega o não respeito ao outro, como vi nesses dias, abre espaço para inúmeras formas de tratamento, que podem variar das mais simples demonstrações de repúdio, asco, ou mesmo, a sinais de verdadeiros pedidos de linchamento ou morte “adoçados” na forma de ironias (como vi em uma publicação meses atrás de um futuro professor); ocultados em sentimentos que dormem enquanto os dedos digitam violentamente no facebook.
 
Se querem criticar algo (ou mesmo destroçar opiniões apresentadas) argumentem, fundamentem seus votos e pontos de vista em um ou no outro candidato; ou em qualquer questão em algum debate. Construam teses, ou não, sobre os mais diversos assuntos, mas respeitem o outro! O saudável debate político não pode ser realizado com ações desprezíveis como as que observamos nessas eleições. Pena em ver a fraqueza e a tristeza de opiniões que giravam em torno de preconceitos e generalizações carregadas de tamanho ódio. Colocando o outros sempre como inimigo, ou coisa pior, só por apoiar algum candidato.
 
Realmente recuso-me a perder tempo em debates onde os donos da “verdade” se colocam como arautos da “razão”. Recolho-me, não por temer o enfrentamento daqueles que se elevam a tão alto desnível de “esperteza e ilusão de soberania”, mas sim por constatar que onde existe a intolerância, e principalmente a falta de respeito, não nascerá e não existe espaço para a ideia de liberdade, por mais que alguns se intitulem defensores dela.
 
Recolho-me, mas não desisto!
 
Um bom Domingo para os eleitores da Dilma e do Aécio, os que vão votar Nulo, justificar ou não votar.
 
Atenciosamente.
Rafael Dantas.

Infelizmente a intolerância e o preconceito persiste depois das eleições.

Observação:
A pintura de Grosz retrata os horrores da I Guerra Mundial, trazendo a barbárie do momento com prédios demolidos, incêndios e corpos mutilados. Foi usada para ilustrar o caos durante as eleições, especialmente do 2° turno, onde a intolerância marcou presença.

***
 
 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A Fragilidade dos Inocentes e a ascensão dos Teóricos de Tudo

Esse pequeno texto mostrará como existem inocentes perante os maliciosos TT. Como são frágeis a discursos bonitos e bem elaborados. Como são suscetíveis a palavras fortes e discursos que explicam tudo e criticam o todo. E como são controlados sem saber.
 
Imagem de Saturno comendo seu filho. Ladeado por Marina Silva, Dilma Rousseff e Aécio Neves. Os Teóricos de Tudo se comportam como “devoradores” de quem pensa diferente. Para eles só existe uma verdade, um caminho, que é sempre o deles. Em época de eleição observamos o triste discurso, beirando o fanatismo, promovido por cegos militantes movidos pelos mais diversos interesses na defesa do que eles acham que é o correto. Créditos: Saturno devorando um filho – Francisco Goya. Recortes: Marina Silva – Thays Cabette, Dilma Rousseff – Wilson Dias, Aécio Neves – Marcelo Sant’Ana/Agência de Notícias PSDB-MG. Imagem/Reprodução: Blog Rafael Dantas, Bahia.
 
Texto Rafael Dantas.
 
Já começo afirmando que todos nós temos um pouco de inocência, nos iludimos com o novo, com o “belo”, com o inédito, com o isso e o aquilo. Decepções fazem parte da caminhada de cada um, onde às vezes de tanto nos decepcionarmos nos entregamos a primeira ilusão que aparece. No entanto nunca poderemos ter certeza se o que enxergamos é realmente o que dizem ser. Em diversas situações as máscaras caem imediatamente, em outros casos permanecem fixadas em rostos incertos e disformes que variam de acordo com o momento e os interesses em questão. Para cada situação assumem uma face com um novo discurso, que consegue atingir muitos, alguns se tornarão fieis que seguirão sem saber o caminho que os TT querem. Em outros casos possuem um discurso mais radical e fixo se comportando como “devoradores” de quem pensa diferente.
 
Os TT (Teóricos de Tudo) estão em todos os lugares especialmente na militância política. Em muitos casos possuem ou reproduzem um discurso que sempre aponta um único erro, uma única causa, chegam a reconhecer outros pontos a ser criticado, mas possuem um único objetivo: provar que são os donos da verdade. Para isso utilizam um discurso bem elaborado, em alguns casos até bonito, que se resume a provar que sempre estão certos, inquestionáveis.
 
E como muitos são “inocentes” sempre buscando a verdade, ou o que seria ela, caem como presas em mandíbulas monstruosas almofadadas por falsas respostas. Antes de seguir um TT ou qualquer outra pessoa, busque, pergunte, analise com calma e veja com seus próprios olhos. Desconfiem daqueles que sempre estão prontos para argumentar sobre qualquer notícia. Que sempre produzem notas sobre tudo, às vezes apelativas, que sempre impõem uma resposta e nunca perguntam o por quê.
 
O que observamos hoje é que ninguém pergunta o porquê das coisas. Sempre estamos prontos para lançarmos uma opinião, uma verdade, e quem pensa diferente que morra. Cada um possui sua ideia do que é a verdade, o certo e o errado, e alguns ainda possuem a ousadia de querer impor o que pensa. Por incrível que pareça muitos se deixam levar pelos TT, reproduzindo inocentemente ou não pensamentos sem nenhum embasamento.
 
Alguns se acham fortes e espertos o suficiente para não cair nessas armadilhas. Acreditam que jamais serão marionetes dos mais diversos interesses existentes. Coitados, já estão presos em finas cordas controladas por maliciosos sabichões. Viraram rebanhos em constante pastagem até o momento do “abate”.
 
Depois da incansável busca pela “verdade” das coisas e ter finalmente encontrado um TT mor, os inocentes começam a reproduzir o que os maliciosos Teóricos de Tudo mandam ou aconselham. Sem saber acabam usando os óculos de uma só lente não enxergando a diversidade de outrora.
 
Arautos da verdade e de todas as respostas não existem. A fragilidade dos inocentes está em achar que são imunes aos mais diversos interesses existentes, deixando-se levar pela preguiça de não perguntar o porquê das coisas.

Observações:
O uso da obra de Francisco Goya é ilustrativo representando a violência dos militantes contra quem pensa diferente deles. O trabalho de Goya mostra o titã Cronos, Saturno na Roma Antiga, devorando seu filho. O titã comia seus filhos por medo de perder o trono. Foram representados somente os três candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto.
Texto também publicado no Blog:

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Referências de Imagens:

F.G.:http://pt.wikipedia.org/wiki/Saturno_devorando_um_filho#mediaviewer/Ficheiro:Francisco_de_Goya,_Saturno_devorando_a_su_hijo_(1819-1823).jpg
M.S.:http://pt.wikipedia.org/wiki/Marina_Silva#mediaviewer/Ficheiro:Marinavaivotar.jpg
D.R.:http://pt.wikipedia.org/wiki/Dilma_Rousseff#mediaviewer/Ficheiro:Dilma-julho2010.JPG
A.N.:http://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A9cio_Neves#mediaviewer/Ficheiro:A%C3%A9cio_Neves_2014-02-20.jpg

*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas

sábado, 7 de junho de 2014

Machado de Assis: Simplificação para o século XXI

Observações sobre o projeto de Patrícia Secco que visa “simplificar” a obra de Assis. E sobre nossa atualidade destrutiva e não contemplativa.

Machado de Assis Simplificado. Imagem de Marc Ferrez 1890.
Em simples reprodução feita no Paint especialmente para o texto.
Blog Rafael Dantas, Bahia.


Texto: Rafael Dantas.
História.
Universidade Federal da Bahia.
Em tempos atuais muitos são guiados pelo imediato, pelo espetáculo – algumas vezes onde não existe, pelo não contemplativo, por uma corrida descontrolada pelo o que cada um considera “modernidade”. Não se tem tempo mais para nada, é tudo dinheiro e mais dinheiro.
 No meio dessa corrida altamente destrutiva e reconstrutiva nos escombros daquilo que não é mais aceito, complicado demais, velho, ultrapassado, perdem-se as matas, o patrimônio histórico, clássicos literários e musicais, e por ai vai. Entre tudo isso surge a grande discussão sobre a simplificação de Machado de Assis, José de Alencar e outros autores.
Se a ideia da autora Patrícia Secco é facilitar o acesso a leitura, trocando palavras por outras mais “simples”, e a pontuação das obras de Machado, não parece que teremos uma facilitação na leitura das obras de Machado de Assis escritas no século XIX, e sim uma simplificação em uma releitura Machadiana no século XXI. Entendo e até posso parabenizar Secco pelo projeto que visa o acesso a leitura, em um país onde muito não leem. Contudo, pelo o que foi divulgado em diversos jornais até agora, a árdua tarefa de Secco pode simplificar ao ponto de não termos mais o autor na obra, e sim interpretações.
João C. C. Rocha esclarece que não condena os esforços de “adaptação” para públicos mais amplos, elencando vários exemplos, nacionais e internacionais[1] já realizados. Mas, em relação ao trabalho de Secco: “parece ser completamente alheio à literatura do autor de O Alienista.”
A palavra “sagacidade” vira “esperteza” (no projeto de Secco). “Esperteza evoca o célebre jeitinho brasileiro e seu sentido nada tem a ver com o contexto das quatro ocorrências da palavra na obra (O Alienista)”
João Cezar de Castro Rocha professor de literatura comparada da UERJ e autor de ‘Machado de Assis: Por uma poética da Emulação’ Editora Civilização Brasileira. A convite do Estadão. [2]
Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade cientifica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”.
José Maria e Silva. Jornal Opção, Edição 2028.
[3]
Não entendam minhas palavras como não adeptas as necessárias mudanças da nossa sociedade.  Apenas reflito que certas coisas, como a obra de Machado de Assim, deva continuar como está, e não adaptada ao ponto que possa girar em torno do “futebol, carnaval e Funk[4]...” - só falta acontecer isso.  Que se invista em uma verdadeira Educação, em reais e significativas mudanças sociais - não paliativos. Para que ai sim os leitores possam finalmente se deleitar nas obras de Assis, Alves, dos Andrade, Amado, Meireles, Alencar, Rosa, Barreto, Bandeira, Quintana, Lobato, Ramos, Abreu, Lispector e outros tantos escritores brasileiros.
“O estilo de Machado é direto e coloquial. Alterando-o, nada restará do escritor”
Alcides Villaça da USP. Em Tribuna do Norte. 24 de maio de 2014.[5]
Em relação a presente dificuldade em ler os livros de Machado de Assis, proponho que a próxima edição traga as palavras ou termos considerados mais difíceis destacados - e não modificados - e com o significado ao lado. Uma consulta no dicionário já era o suficiente, mas, para facilitar acho que isso já ajuda e muito.
 Quando Ubaldo Ribeiro escreve (sobre o caso): “Mas, quanto aos autores vivos, pode-se incentivá-los (ou obriga-los, conforme o momento) a ater seus escritos ao Vocabulário Popular Brasileiro,”[7]. Imagino uma realidade onde parece que cada vez mais o individuo está perdendo suas características, e deixando sua capacidade inovacionista e criativa, para tentar se adequar ao geral ou popularizar seus trabalhos. Onde fica o perfil de cada um? Onde fica os estilos? Será que no futuro o “eu” de cada um não existirá mais? Tudo será ou tentará ser a mesma coisa? Se as coisas continuarem assim chegará o dia em que teremos o triunfo dos medíocres, respaldados quem sabe por algum governo, isso se esses dias medíocres já não estão acontecendo. Perguntas e mais perguntas que aos poucos serão respondidas pela própria sociedade. Que de forma alguma se ligam obrigatoriamente a polêmica do projeto de simplificar Machado de Assis. Entre exageros ou quem sabe previsões, ou visões realistas da sociedade, Ubaldo Ribeiro (e outros) mais uma vez escreve trazendo luzes entre lanternas que também possuem luzes, mas às vezes com focos desfocados.
“O foco específico do projeto é a doação de livros para pessoas que não tiveram oportunidade de estudar ou tiveram acesso a um ensino de baixa qualidade”[8].
Patrícia Engem Secco. Especial para o UOL[9].
 O problema não está na distribuição de milhares de livros - isso é ótimo, fantástico - e sim no que está sendo distribuindo - com dinheiro público (mais de 1 milhão). A substituição de palavras não fará o aluno, ou qualquer outra pessoa, gostar de Machado de Assis. Só se gosta de um autor conhecendo o que ele escreveu, identificando alguma coisa que nos aproxime da obra.  Que se distribuam “chaves” para facilitar, auxiliar na leitura de Machado, mas não modificar o escrito da forma apresentada até agora.
Deve-se mostrar o encantamento que a leitura proporciona, a mágica das palavras, as possibilidades presentes na leitura de cada livro. Ler é uma tarefa que exige atenção e dedicação. Por isso que iniciei o texto trazendo a questão contemplação e hoje contemplar algo é cada vez mais raro.

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Indicamos a página: Nota do Tempo.




[1] Em http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,especialista-em-machado-de-assis-analisa-iniciativa-de-simplificar-obras,1164214
[2] http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,especialista-em-machado-de-assis-analisa-iniciativa-de-simplificar-obras,1164214
[3] http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/discipula-de-paulo-freire-assassina-machado-de-assis-4399/
[4] Não afirmo que intenção de Secco seja essa.
[5] http://tribunadonorte.com.br/noticia/machado-de-assis-simplificado/282731
[6] http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/luis-antonio-giron/noticia/2014/05/nao-toquem-em-bmachado-de-assisb.html
[7] Sobre a polêmica Ubaldo Ribeiro Escreve: http://oglobo.globo.com/opiniao/reescrevendo-historia-12671527
[8] As obras modificadas por Secco e equipe estão em: http://www.reciclick.com.br/biblioteca-digital/
[9] http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/13/opiniao-machado-nao-gostaria-de-permanecer-desconhecido-para-quem-nao-le.htm

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As melhores avaliações sobre as modificações realizadas por Secco e equipe foram a de José Maria e Silva e João Cezar Castro Rocha.
O interessante texto de Danilo Venticinque foi um dos poucos (único encontrado) a apoiar o projeto de Patrícia Secco.

“... ler é mais compensador que jogar videogame ou assistir a uma série de televisão.”
Luís Antônio Giron. Revista Época. 29 de maio de 2014.[6]

Referências e indicações sobre o caso:
*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas

terça-feira, 1 de abril de 2014

Morre Jacques Le Goff. Responsável por uma nova percepção da Idade Média.

"Em 2004 recebeu o prémio Dr. A. H. Heineken de História, atribuído pela Academia Real das Artes e Ciências dos Países Baixos, a declaração do júri dizia que Le Goff “mudou a nossa percepção da Idade Média".¹

Morre Jacques Le Goff um dos maiores historiadores do século XX.
 Desenho: Rafael Dantas. 1 de Abril de 2014. 
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia.

1 de abril de 2014. Morre o historiador francês Jacques Le Goff.
Singela homenagem a um dos nomes mais marcantes e importantes da historiografia do século XX. Deixa um importantíssimo trabalho espalhados em mais de 40 livros, além de outras publicações.

Apresentamos o texto escrito por Luís Miguel e Isabel Salema publicado no site http://www.publico.pt/cultura sobre Le Goff. Disponível em:


¹http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-o-historiador-jacques-le-goff-1630555

Atenciosamente:
Blog Rafael Dantas, Bahia.
Desenho da Imagem: Rafael Dantas.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Salvador 465 anos de Fundação. "Desenho sem fim de pura beleza, História, e coisas da Bahia"

Mensagem para a Cidade de Salvador no seu aniversário de 465 anos. "Desenho sem fim de pura beleza, História e coisas da Bahia".
Texto: Rafael Dantas.
Parabéns Salvador pelos 465 anos de fundação. Desenho de Rafael Dantas do Elevador Lacerda e de parte da Cidade Alta e Baixa, com o Mercado Modelo (antiga Alfândega) e um velho saveiro da Bahia no mar do Porto de Salvador.
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia / Março de 2014.


Hoje é um dia especial. Salvador Cidade encantada mergulhada em encantos e os mais belos e saudosos cantos, completa 465 anos de fundação.

 Belíssima "Lisboa revisitada sudanesa, [...] Roma Negra encravada no ocidente [...]", como escreveu e cantou Roberto Mendes e Jorge Portugal. Salvador continua a encantar e cantar por todos os lugares sua rica história e o marcante sorriso do seu povo.

 Chamada de "Cidade da Bahia" por muito tempo, Cidade das 365 igrejas, terra de ladeiras, casarios, fortes e marcantes vultos cravados nas amarelas páginas da sua história, Salvador da Bahia é uma grande mistura, desenhada e construída por muitos, sempre abençoada por Todos os Santos.
 Infelizmente não é só de alegrias que vive Salvador, no meio de belezas temos tristezas e ruínas que se arrastam por séculos. Mesmo assim, graças a seu povo e seus defensores, a bela cidade fortaleza continua bela.
 São simples palavras perante a importância da data citada. Mas o que realmente importa é a sinceridade dos mais diversos votos em meio toda a poesia e prosa circulante nesta terra sempre amada e admirada. Realmente só poderia ser "coisa da Bahia".

Em postagem especial será publicado três textos no Blog discutindo as modernizações do final do século XIX e inicio do XX em Salvador, na conhecida Belle époque*

 Atenciosamente,
Blog Rafael Dantas, Bahia.
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