domingo, 23 de junho de 2013

Manifestação Salvador 22 de Junho de 2013. Memórias do confronto no Iguatemi, e do dia que a Paralela foi tomada.

Mais um dia de manifestações em Salvador. Depois de uma longa caminhada problemas no Iguatemi, Barris, e caminhada até a Paralela.
Manifestantes indo para o Iguatemi. Dia 22 de Junho de 2013.
Imagem: Lúcio Távora | Ag. A TARDE.

Rafael Dantas.
História UFBA.
Depois de sairmos do Campo Grande (umas 15 horas) passando pelo Vale do Canela, Garibaldi e ACM, chegamos (umas 17 horas) no Iguatemi. O clima de paz e união da manifestação, que deve ter reunido mais de 15 mil pessoas, foi quebrado por um combate covarde. Mais uma vez os acontecimentos do 20 de Junho de 2013 marcaram presença http://rafaeldantasbahia.blogspot.com.br/2013/06/manifestacao-salvador-memorias-do-20-de.html. Durante a longa caminhada encontramos um grupo que vinha da região dos Barris falando que tinham sido reprimidos pela polícia. E que outras manifestações estavam acontecendo em outros bairros de Salvador. Segundo relatos de alguns dos manifestantes o que aconteceu nos Barris foi uma "caçada".
Mapa do trajeto da manifestação em Salvador. Campo Grande/Iguatemi. Campo Grande/ Paralela. Campo Grande/ Barris. Dia 22 de Junho de 2013.
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia.
A manifestação que saiu do Campo Grande as 15 horas parou em frente ao Shopping Iguatemi - que foi um grande erro em minha opinião. A ideia surgiu de um grupo que estava na frente da manifestação. Muitos queriam continuar (Paralela, Tancredo Neves), outros seguir um novo destino, ou discutir alguma coisa (como os motivos da manifestação); mas o que fizemos foi ficar parados e cantar o Hino Nacional. Assim ficamos por alguns minutos, até percebemos alguns pequenos tumultos de grupos isolados. Falaram que parte dos manifestantes queriam fechar a outra pista da ACM, e a Choque não deixou, começando o confronto. Outros disseram que uma pessoa (não sei se era ou não um manifestante) jogou uma bomba em direção a PM.
Manifestantes na frente do Iguatemi. Dia 22 de Junho de 2013.
Imagem: Lúcio Távora | Ag. A TARDE.
De uma hora para outra um nevoeiro de gás e bomba de mil, modificou a realidade pacífica da manifestação. Várias pessoas tentaram se refugiar em frente ao Iguatemi, (que fechou as portas) enquanto outros correram para a garagem do Shopping, para a encosta do Caminho das Árvores, para a ACM ou em direção a Paralela. O Iguatemi parou.
Estava na frente do Iguatemi quando as bombas e o gás obrigou que saíssemos correndo. Várias pessoas ficaram sem ar, inclusive eu, e corremos para o Capemi, em um quase cenário de guerra.  Durante uma hora ou mais esse foi o desfecho da manifestação.
Enquanto estávamos refugiados na encosta do Caminho das Árvores, ouvimos as mais diversas histórias que relatavam as cenas de violência, a contrariedade da depredação, a necessidade de continuar as manifestações; e a revolta dos manifestantes com parte da imprensa que considera os manifestantes como baderneiros ou vândalos.
Quando percebemos que a situação estava mais “tranquila” saímos da encosta do Caminho das Árvores (atrás do Shopping Iguatemi) e voltamos para a Avenida ACM.  Nesse momento encontramos um grupo de manifestantes, que acompanhou todo o percurso, relatando os vários interesses partidários de alguns dos envolvidos na manifestação e nas discussões realizadas no Passeio Público. Um manifestante que estava nos Barris também afirma que um grupo quis dividir a manifestação.
Seguimos para a ACM quando inesperadamente encontramos um grupo de manifestantes (uns 200) vindos do Campo Grande. Mesmo sendo um grupo menor, portanto mais vulnerável a um ataque da polícia, a organização e a paz marcava presença. Acabamos indo com esse grupo em direção a Avenida Paralela. Durante todo o longo percurso, o grupo mostrou sua força sem NENHUM ato de violência ou depredação, assim como na primeira manifestação. Exceto no pós confronto no Iguatemi, onde foram registrados atos de depredação.
A Avenida Paralela parou.   
Seguindo pela Paralela encontramos o outro grupo de manifestantes (acredito que faziam parte da primeira manifestação) que tinham tomado a pista da Avenida Paralela sentido ACM.
O encontro foi emocionante. A Paralela estava tomada! por pessoas lutando por um país melhor. Tudo na maior paz!
Manifestantes ocupam a Avenida Paralela no sentido ACM.
O fogo da barricada foi apagado em seguida pelos próprios manifestantes.
Imagem: Pablo Reis. Bahia Todo Dia.
Na Avenida Paralela, próximo a Odebrecht, os dois grupos fizeram uma barricada bloqueando o trânsito nos dois sentidos.  Por volta de umas 21 horas, eu e mais dois amigos, Silvio dos Reis e Macio Ventura, decidimos voltar para o Iguatemi (tentar pegar um ônibus). A ideia do grupo era bloquear o trânsito até mais ou menos 21h40min; fazendo intervalos de 5, 20 minutos, dando passagem para os carros.
Na volta para o Iguatemi, ainda na Paralela, encontramos uma equipe da TV Bahia, com a repórter Georgina Maynart. Ela nos perguntou o que tinha acontecido, e falamos que a manifestação que foi até a Paralela, aconteceu na maior tranquilidade sem NENHUM ato de vandalismo ou depredação; depois disso a equipe continuou indo em direção a manifestação.
Já no Iguatemi percebemos que o trânsito estava normal, provavelmente a manifestação tinha acabado. 
A manifestação do sábado mostra que não podemos parar o movimento. Mas infelizmente está ficando visível que algumas pessoas, grupos, estão tentando dar outro sentido nos protestos. Falam de infiltrados da polícia, de partidários do governo, de bandidos, e por ai vai. Tudo isso começou de forma livre, espontânea, e ganhou projeção imaginável. Nesse momento temos que ter muito cuidado, com os grupos que estão surgindo, ou tomando direta ou indiretamente a liderança das manifestações. Vamos ficar atentos (não paranoicos) a quem está segurando os megafones, quem fica a frente das manifestações, etc. Essas manifestações podem fazer com que esse “gigante” dê uma nova cara para o Brasil, assim como pode direciona-lo para um abismo de interesses, onde mais uma vez perderemos.
Agora que começamos não podemos parar. O momento é de união. E quando cito união é de todos os brasileiros, claro, inclusive a Polícia. Não podemos buscar inimigos, a violência, a desunião, e não buscamos, por mais que queiram assim divulgar. Se não compreendermos o poder que temos, em nada adiantará correr tanto e morrer na linha de chegada.

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*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog.
Atenciosamente Rafael Dantas.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Manifestação Salvador. Memórias do 20 de Junho de 2013.

A quinta feira poderia acabar em paz. Porém além da beleza da manifestação, a repressão e depredação marcaram presença.
Manifestantes no Campo Grande, antes de começar a passeata rumo a Fonte Nova. Ainda nesse momento tínhamos um Campo Grande de paz. Ao anoitecer a realidade era outra.
Imagem: Teo Henrique | Ag. A TARDE.


Texto: Rafael Dantas, Bahia.
História UFBA.


Quando chegamos ao Campo Grande (eu e mais alguns amigos) percebemos a dimensão do protesto, principalmente na região em frente ao Teatro Castro Alves em direção a Avenida Sete de Setembro. Mais ou menos depois das 15 horas começamos a caminhar em direção a Fonte Nova, em um clima te total harmonia, cantando o Hino Nacional e outros gritos de protestos. A presença de grupos representando partidos políticos (PSTU e PSOL, que eu vi) não foi bem recebida nesse momento; e muitos manifestantes vaiaram tais grupos, mas sem nenhum ato de agressão. (Clique nas imagens para ampliar)
Mapa do percurso da Manifestação Passe Livre Salvador.
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia
 
Quando a multidão passou em frente à Rua Politeama de Baixo grande parte dos manifestantes desceram em direção aos Barris (para chegar a Fonte Nova) enquanto outra parte foi caminhando pela Avenida Sete. Chegando à Avenida Joana Angélica o que aconteceu foi uma verdadeira guerra. Mas não estava lá (fui para os Barris) fiquei sabendo por amigos. Algumas pessoas falaram que infiltrados tentavam prejudicar a manifestação. E representantes de partidos políticos tentavam tomar a liderança do protesto. 
Confronto entre a Polícia e os Manifestantes na Avenida Joana Angélica.
Imagem: Eduardo Martins | Ag. A TARDE.

Ainda sem nenhum tumulto, em um clima de total paz, quem desceu pelo Politeama (grande parte dos manifestantes) chegou ao Vale dos Barris, passando próximo a Primeira Delegacia. Seguimos em direção ao Dique do Tororó. Logo depois da delegacia começamos a visualizar a dimensão da manifestação. Divulgaram 20 mil pessoas, mas acredito que deve ter ultrapassado 40 mil manifestantes, ou quem sabe mais. Percorrendo toda a Avenida Vale dos Barris, chegamos a Praça João Mangabeira (onde ficam umas quadras de futebol) e continuamos em frente.
A manifestação que até então era caracterizada pela paz, foi drasticamente direcionada para atos de repressão pela polícia, que impediu os manifestantes que seguiam para o Dique. Os manifestantes que conseguiram ir além da Praça João Mangabeira, foram impedidos pela policia Militar e Cavalaria. Foi o inicio de cenas absurdas.
http://www.youtube.com/watch?v=GOnEOSnLbwg&hd=1
Vídeo You tube. Renan Santos"Passe Livre Salvador".
 
 
Ainda estava na Praça, ao lado de umas das quadras com mais dois amigos, quando ouvimos o estrondo das bombas e a fumaça tomando todo o lugar. Milhares de manifestantes começaram a voltar para o Vale dos Barris correndo, e outro grupo dispersou para a Avenida Centenário. Foi uma multidão, e o desespero tomou conta da situação. Essas primeiras ações da Policia Militar, conseguiram fazer com que os manifestantes recuassem, e boa parte deles voltaram para o Vale dos Barris; enquanto outros ficaram e tentaram seguir em direção ao Dique. Os que ficaram na região próxima a Praça sofreram com as bombas, as balas de borracha, o gás lacrimogêneo e o spray de pimenta. Os que correram, voltando para o Vale, tiveram que enfrentar o nevoeiro de gás lacrimogêneo que o vento trazia. Muitos manifestantes correram em direção aos Barris, enquanto outros continuavam descendo pelo Politeama. Durante horas essa foi a situação da manifestação, ficando clara a atitude desnecessária da PM, tratando os manifestantes de uma forma absurda.
À medida que mais bombas, gás e tiros de borracha eram disparados contra os manifestantes, o recuo ficava claro. Mas a maioria dos manifestantes persistiram e tentaram por diversas vezes furar o bloqueio, sendo reprimidos com mais gás de pimenta, bombas e tiros de borracha. Em determinado momento um grupo de manifestantes conseguiu fazer com que a cavalaria recuasse.  
Voltando para o Vale dos Barris decidimos seguir novamente em direção ao Dique, mas logo fomos impedidos pela polícia, e o tumulto se generalizou. Refugiamos-nos temporariamente nos matos que ladeiam a avenida, próximo a um córrego e um outdoor. Enquanto algumas pessoas subiam as escadarias que levam ao Garcia.
Sem poder continuar, voltamos para o Vale. Nesse momento percebemos os primeiros atos de depredação, e por mais que a maioria dos manifestantes repudiassem os atos, inclusive pedindo para que não fizessem, ou mesmo vaiando; alguns dos envolvidos continuaram.
Vídeo - Gás lacrimogênio no Vale dos Barris - Repórter Silvia Resende. Ibahia.

Mais uma vez voltamos para o Vale, e decidimos voltar em direção a Praça na expectativa de chegar ao Dique. Chegando à Praça, não coseguimos continuar. Uma nuvem de gás lacrimogêneo, que parecia pimenta, fez com que a maioria recuasse. Nesse momento sentimos realmente, de forma muito mais intensa que das primeiras vezes, o terrível efeito do gás. Na volta encontramos quatro pessoas desmaiadas, e uma garota passou com um tiro de bala de borracha na nádega. Cachorros e gatos corriam desesperadamente no meio da manifestação, ou entre os carros estacionados, por causa do barulho.
 
Por volta de umas 17, 18 horas muitos dos manifestantes começaram a voltar para o Vale dos Barris, em direção ao Politeama. A polícia pressionava os manifestantes em direção ao Centro. Chegando ao Politeama em frente ao Orixás Center, bombas eram jogadas pelos policias que estavam na Avenida Sete, obrigando que os manifestantes corressem para a Rua Direita da Piedade (passando pelo viaduto) em direção ao Instituto Feminino. Lá encontramos outros manifestantes que subiam pela Rua Politema de Baixo, todos em direção ao Campo Grande.
Chegando ao lado do Forte São Pedro, encontramos em uma das muralhas inúmeros cartazes com as mais diversas reivindicações. Já no Largo do Campo Grande percebemos a triste cena de uma quase guerra. Foi revoltante ver o monumento de 1894 do escultor Carlo Nicoli em homenagem ao Dois Julho, pichado. Nas escadas em mármore carrara tínhamos diversas pichações, e nas bases das esculturas e das luminárias também. Em seguida um pequeno grupo depredou as luminárias dos gradis laterais, e em outro ponto do Largo fizeram fogueiras e barricadas. O Campo Grande parecia estar sitiado.
Monumento ao Dois de Julho pichado.
Imagem: Tayse Argolo. Correio.

O Campo Grande na noite do dia 20 de Junho de 2013.
Imagem: Raul Spinassé | Ag. A TARDE.
 
Os manifestantes se dividiram em direção a Avenida Centenário, Vale do Canela e Corredor da Vitória. Ainda consegui acompanhar parte da manifestação na Orla da Barra indo em direção a Ondina. Alguns comentários mostram que no bairro de Ondina o protesto também foi reprimido, e outras pessoas falaram que parte dos manifestantes conseguiram chegar até o Rio Vermelho.
O 20 de Junho foi marcante na História de Salvador. Lembrei o 2003 e sua Revolta do Buzu. Infelizmente as ações repreensivas por parte da polícia, e os atos de depredação de alguns dos envolvidos nas manifestações, transformaram uma manifestação pacífica, em um cenário triste de um combate covarde. Falaram (não confirmado) que em determinado momento do trajeto, integrantes da Polícia Civil foram aplaudidos pelos manifestantes, por dar passagem a manifestação.
Contudo os tristes acontecimentos não podem jamais enfraquecer o movimento. Devemos seguir e continuar mostrando nossa força, perante um governo que maltrata seu povo, para oferecer a ilusão de um “circo” direcionado para poucos.



O “gigante” precisa continuar caminhando.


Não sou  favorável a depredação. Mas devemos olhar esse depoimento com muita atenção. Muito do que foi dito infelizmente é verdade:
http://www.youtube.com/watch?v=gWSGuHehdkE
Vídeo You Tube. Rosa Ribeiro - "Manifestação em Salvador: O Direito de Resposta"Manifestação Salvador Dia 22 de Junho:
http://rafaeldantasbahia.blogspot.com.br/2013/06/manifestacao-salvador-22-de-junho-de.html



*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do blog assinados por Rafael Dantas, Bahia. pode ser feita com a devida referencia do link, nome do autor dos artigos, e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Demolindo a própria História. O Descaso com os antigos casarões em Salvador.

Modernidade? Importantes símbolos do passado e retratos ainda presentes das transformações da Cidade do Salvador. Atualmente os velhos casarões do Corredor da Vitória continuam ameaçados ou mesmo sendo demolidos. Em postagem especial veremos uma retrospectiva da febre demolidora que atingiu Salvador, especialmente no Corredor da Vitória, Campo Grande, Graça e Barra ao longo dos anos.
http://rafaeldantasbahia.blogspot.com.br/2013/05/demolindo-propria-historia-o-descaso.html

O painel pintado em 1952¹ por Cândido Portinari retrata a Chegada da Família Real ao Brasil em 1808 (imagem maior), desembarcando em Salvador, Bahia. Quatro dias depois foi promulgada a Abertura dos Portos as Nações Amigas.
Ao longo do século XIX, significativas mudanças no cenário econômico, politico, social e urbano, foram sentidas na Bahia, principalmente na capital. No inicio do século XX a Cidade do Salvador passou por uma importante modernização, seguindo os passos do que já tinha acontecido na então Capital Federal, o Rio de Janeiro com o prefeito Pereira Passos. Na Bahia com o Governador J. J. Seabra, Salvador passou por seu embelezamento, onde inúmeras construções mudaram o panorama da velha Cidade. A Avenida Sete de Setembro é o grande marco do período. Regiões como o Centro de Salvador, Corredor da Vitoria e o Bairro da Graça, são símbolos desse momento. Nas imagens menores: Largo da Graça [Casarão dos Carvalhos e de Luiz Tarquínio] , e duas visões do Corredor da Vitoria na década de 20. Terceira imagem, casarão da família Carlos Costa Pinto, demolido. Reprodução: Blog Rafael Dantas, Bahia. 

Texto: Rafael Dantas.
História. Universidade Federal da Bahia.
 A Abertura dos Portos em 1808 possibilitou uma série de modernizações que marcaram significativamente algumas regiões de Salvador. Especialmente no século XIX destacamos a vinda de comerciantes estrangeiros para Bahia, entre eles: ingleses, franceses, alemães, suíços e portugueses. A região do Corredor da Vitória e da Graça, principalmente, foram os lugares escolhidos pelos ricos comerciantes do período, entre eles esses estrangeiros, que encontraram ali a região ideal para construir suas residências. Seguindo a ideia de modernidade da época, junto com as questões de salubridade e os estilos arquitetônicos que vigoravam na Europa - especialmente em Paris, com as reformas do Barão de Haussmann.
O contexto urbano do Centro Antigo da velha Cidade de Salvador, marcado pela predominância do Colonial nos casarios, residências que dividiam paredes, ruas estreitas e com vários problemas sanitários (realidade de várias cidades pelo mundo na época), começaram a ser considerados exemplos do atraso. É importantíssimo também mencionar a crise açucareira e a abolição da escravidão, fatos que abalaram a elite do final do século XIX, caracterizada pelos ricos senhores de engenho.
O século XIX abriu as portas para essa nova burguesia e posteriormente a construção dos casarões que já embelezaram a Cidade. Até serem demolidos sob uma nova visão de crescimento e modernidade que passou por cima de tudo, e continua destruindo o que sobrou. Nos últimos anos o conhecido Corredor da Vitória (trecho da Avenida Sete de Setembro) perdeu vários imóveis históricos. As demolições mais recentes foram a Mansão Wildberger (2007) o Casarão do Jornalista Jorge Calmon (demolido em 2009), o Chalé que ficava ao lado do Curso UEC (hoje uma ridícula concessionária de automóveis, demolido em 2012) e o velho Casarão do curso UEC, demolido recentemente.
A Recente Demolição.

Casarão no Corredor da Vitória onde funcionou o Curso de Inglês UEC. Demolido completamente em maio de 2013.
Imagem (recorte): Google Maps 2011.


 Assim como os outros casarões do Corredor da Vitória, a mansão (imagem a cima) serviu de residência até meados do século XX (na década de 60 muitos dos casarões que ainda existiam começaram a ser vendidos e demolidos e no lugar começaram a aparecer os edifícios residências). Segundo informações de uma das pessoas entrevistadas o imóvel foi sede de uma construtora, e na década de 80 passou a funcionar o conhecido curso de inglês UEC (Universal English Course). Em 2010 a UEC encerrou suas atividades em Salvador depois de 30 anos de funcionamento.
No inicio de 2012 um site de vendas mostrava o casarão a venda. Algumas imagens exibiam detalhes internos do imóvel, que devido às várias reformas realizadas ao longo dos anos, perdeu muito de suas características originais. Com exceção de alguns detalhes internos, e da escadaria em madeira. Aparentemente a modificação externa mais visível foi realizada na fachada do imóvel, cobrindo a janela central do andar térreo, onde tínhamos o nome do Curso de Inglês UEC. Externamente o imóvel ainda apresentava a maioria das características com poucas modificações, como pode ser visto em uma imagem do início do século XX (infelizmente indisponível).
A fotógrafa Vitória Régia Sampaio registrou o momento da demolição do casarão. Pelas imagens o imóvel começou a ser demolido no dia 27 de abril de 2013, e no dia 4 de Maio, o terreno já estava limpo. As imagens de Vitória Régia Sampaio, e um vídeo disponível no YouTube, são os únicos registros até agora encontrados sobre a demolição do casarão.
Casarão no Corredor da Vitória sendo demolido.
Imagem Vitória Régia Sampaio 2013. Reprodução autorizada pela autora. Blog Rafael Dantas, Bahia.

As últimas paredes do Casarão na Vitória sendo derrubadas.
Imagem: Vitória Régia Sampaio 2013. Reprodução autorizada pela autora. Blog: Rafael Dantas, Bahia. 

Com o Casarão já demolido, as máquinas começaram a limpar o terreno.
Imagem: Vitória Régia Sampaio 2013. Reprodução autorizada pela autora. Blog: Rafael Dantas, Bahia. 


 As Reações.
Conversei com comerciantes locais, museólogos, moradores, trabalhadores da região e transeuntes, sobre a demolição do casarão (a maioria não quis se identificar). Sete dos entrevistados não concordaram com a demolição do imóvel, destacando a importância histórica e a beleza arquitetônica da velha mansão. Duas pessoas concordaram com a demolição; uma não vê importância alguma na preservação do casarão demolido e a outra pessoa diz que no lugar poderá ser construído algo de positivo para o Bairro da Vitória. O comentário mais marcante foi o da museóloga que alertou sobre a triste banalização das demolições.

O que restou. E o que foi demolido.
A recente demolição (do casarão na Vitória) representa mais uma perda para a memória urbana da Cidade do Salvador do final do século XIX e inicio do XX. Triste realidade presente principalmente nos bairros que passaram, e passam, por grande especulação imobiliária.
[Clique nas imagens para ampliar]
O antes e o depois das construções que ladeiam o Campo Grande, Salvador Bahia. Ao longo dos anos os palacetes da região foram demolidos, e no lugar grandes edifícios residenciais foram construídos. Foi o caso do Palacete Machado (antiga Câmara dos Deputados da Bahia) e o Templo da Igreja Anglicana em imagem da década de 20. No lugar das construções surgiram os edifícios: Palácio da Assembleia e Britania Mansion respectivamente.
A primeira imagem foi encontrada na página do Facebook do British Cemetery in Bahia - St. George´s Society.
A segunda imagem é do Google Maps 2011.
Reprodução: Blog Rafael Dantas, Bahia 2013.







No Campo Grande
perdemos importantes construções durante o século XX. Entre elas destacava-se o antigo Palacete Machado, onde em 1920 foi instalada a Câmara dos Deputados da Bahia (futura Assembleia Legislativa da Bahia), permanecendo ali até 1930. No lugar do Palacete foi construído o Condomínio Edifício Palácio da Assembleia. Ao lado da antiga Câmara dos Deputados tínhamos a sede da Igreja Anglicana da Bahia construída em 1853, demolida em 1975; no lugar construíram o edifício residencial Britania Mansion.
[Clique nas imagens para ampliar]
O antes e o depois do Largo da Graça. Com o passar das década os palacetes e chalés desapareceram. O casarão da Família Carvalho, construído no final do século XIX, é o único casarão que sobreviveu no Largo da Graça, ao lado da Igreja da Graça. Imagem da década de 20, século XX. Já o casarão do industrial Luiz Tarquínio foi demolido e no lugar construíram o edifico Paulo Nunes. Hoje o Largo é cortado por importantes avenidas, e perdeu os jardins que já embelezaram a região.
A primeira imagem foi encontrada no Grupo/Facebook: Salvador, História de uma Cidade.
A segunda  imagem é do Google Maps 2011.
Reprodução: Rafael Dantas, Bahia 2013.


No Bairro da Graça e Barra a maioria das antigas construções desapareceram. No Largo da Graça e na Avenida Princesa Leopoldina só restaram duas construções, o Chalé Alpino em estilo Inglês dos Carvalhos construído em 1890 ao lado da Igreja da Graça. E outro é o casarão que pertence à família Soares da Cunha, pioneiros da Medicina Homeopática na Bahia, localizado entre dois edifícios: Olga Pontes e Princesa Isabel. O professor Heraldo Lago Ribeiro lembra que ao lado da residência dos Carvalhos ficava a casa do Industrial Baiano Luiz Tarquínio que foi demolida e no lugar construíram o Edifico Paulo Nunes. Na Avenida Princesa Isabel (Graça) o Casarão conhecido como Villa Augusta, que pertenceu ao renomado Professor Thales de Azevedo será demolido para construção de dois edifícios. (Clique aqui para ler o Artigo sobre a Villa Augusta). Na Ladeira da Barra em 2009 tivemos a 15° edição da Casa Cor Bahia em um dos últimos casarões da região, que pertenceu ao ex-cacauicultor Nelito Carvalho (o último proprietário do imóvel foi Manoel Joaquim de Carvalho) logo depois a velha mansão foi demolida para construção de um edifício residencial: o Solaire. (No próximo mês será publicado um artigo sobre a evolução da destruição dos casarões no Corredor da Vitória.). A partir da década de 50/60 significativas mudanças no bairro da Barra começaram a transformar a região. O que se intencionaria nas décadas seguintes com a demolição de centenas de casarões, chalés e palacetes, surgindo modernos edifícios residenciais e hotéis. O mesmo pode ser aplicado para os outros bairros da região central, que com suas devidas características, perderam um número significativo das antigas construções.

No meio da destruição, os "remanescentes".  
Evidente que não podemos ser contrários a melhorias urbanas ou defendermos que absolutamente "tudo" seja preservado em uma cidade, ignorando os valores de cada imóvel ou região (preservar só por preservar). Porém, especificamente no caso da recente demolição - do casarão no Corredor da Vitória, e dos outros tantos tristes episódios, temos mais uma perda em um lugar onde poucos imóveis com características históricas e arquitetônicas para tombamento ainda existem.
Felizmente ainda permanecem de pé no Corredor da Vitória: o Museu de Arte da Bahia, O Museu Carlos Costa Pinto, a antiga Residência Masculina da Universidade Federal da Bahia, o casarão que fica em frente ao Edifício Margarida Costa Pinto, e o outro que fica em frente ao Edifício Victory Tower (primeiro a ser preservado e ao fundo construído um edifício). Existem mais três imóveis que pertencem a instituições públicas e privadas, e outro que abriga uma agência do Banco Santander. Os dois últimos são o Solar Cunha Guedes e o velho Chalé vizinho (Conhecido como Ferro Velho).


Imagem que mostra o Edifício Leonor Calmon no fundo do
Casarão eclético do Jornalista Jorge Calmon. No projeto
divulgado inicialmente a Mansão seria preservada. Mas foi
demolida em 2009.
Imagem encontrada no site da Revista Veja. 
Alguns desses casarões entraram na lista de imóveis tombados provisoriamente em 2003 pelo IPHAN, mas infelizmente em 2004 o processo foi arquivado. Inclusive as Mansões Wildberger (clique aqui para ver artigo sobre a Mansão W.) e a do Jornalista Jorge Calmon (hoje Mansão Leonor Calmon demolido em 2009), que estavam na lista, já foram demolidas.
O historiador Rubens Antonio registrou a demolição do Casarão que pertenceu ao jornalista. As imagens de R. Antonio são os únicos registros até agora encontrados sobre a demolição.

O casarão eclético do Jornalista Jorge Calmon sendo demolido em 2009.
Imagem: Rubens Antônio 2009. Reprodução autorizada pelo autor. Blog Rafael Dantas, Bahia.

Rubens Antônio também registrou a demolição do chalé eclético de 1919 que pertenceu a Sr. Pedro T. Velloso Gordilho, localizado entre a Doceria Doces Sonhos no Corredor da Vitória e o casarão da UEC. O imóvel foi demolido e no lugar construído um terrível “galpão” da concessionária Honda. Algumas pessoas apontaram a recente demolição do imóvel (2012) como uma das perdas mais significativas no Corredor da Vitória. Durante muitos anos funcionou no Chalé uma clínica infantil.
Antigo Chalé do Corredor da Vitória construído em 1919. Foi demolido em 2012, e no lugar foi construído uma concessionária. Agora só restou um chalé no Corredor, conhecido como Ferro Velho, ao lado do Solar Cunha Guedes.
Imagem: Rubens Antônio 2012. Reprodução autorizada pelo autor. Blog Rafael Dantas, Bahia. 

Evolução da demolição do velho chalé eclético de Pedro Gordilho no Corredor da Vitória. Na segunda imagem visualiza-se ao fundo o casarão da UEC. Na terceira imagem o "Galpão" da Honda.
Imagem: Rubens Antônio 2012. Reprodução autorizada pelo autor. Blog Rafael Dantas, Bahia.

Se expandirmos a triste realidade dos velhos casarões do Corredor da Vitória, Graça Campo Grande, Barra, para os outros bairros de Salvador, observaremos que perdas importantes marcaram e continuam marcando o solo da velha capital baiana.
Os bairros do Bonfim, Subúrbio Ferroviário, Ribeira, Itapagipe, Nazaré, Brotas, Rio Vermelho, (entre outros) também possuem importantes construções que não são tombadas,e outras que já foram demolidas ou modificadas. Se expandirmos esse debate para as áreas verdes ameaçadas em Salvador, notaremos que a situação também é grave. (clique aqui para ver os artigos sobre as áreas verdes da Avenida Paralela, Corredor da Vitoria e Bairro do Canela)

Em muitos casos as leis patrimoniais só tombam a parte externa do casarão, internamente o proprietário pode fazer modificações. Quando o casarão não é tombado podem existir acordos que preservem completamente ou parte do imóvel, como exemplo temos os prédios que preservaram as antigas residências na frente do edifício.  

A antiga Residência Cardinalícia de Salvador no Capo Grande. Hoje o Morada dos Cardeais. Foi preservada a fachada e os gradis das varandas. Mas internamente nada foi preservado. A torre e os jardins foram demolidos.
Imagem: Google Maps 2011.

 Foi isso o que aconteceu com a antiga Residência Cardinalícia no Campo Grande ou também conhecida como Palácio Arquiepiscopal. Nome que recebeu quando a sede foi transferida do antigo Palácio colonial na Praça da Sé, para a residência do Campo Grande que pertenceu ao engenheiro Hugh Wilson. Em 1927 a casa foi ampliada e adquirida pelo Arcebispo D. Augusto Álvaro da Silva (envolvido no triste episódio da demolição da Sé) tornando-se residência cardinalícia. A construção da Morada dos Cardeais causou grande polêmica pois ameaçava o antigo casarão. Mesmo com a contrariedade de vários arquitetos, historiadores, sociedade em geral, o edifício foi construído e entregue aos moradores em 2005. Durante as obras do empreendimento os azulejos da parte externa do casarão foram retirados, toda a parte interna do Palácio Arquiepiscopal destruída (virou salão de festas, academia, etc), derrubaram os jardins (para construção do Edifício), e demoliram o observatório (torre) que ficava no fundo da propriedade (sem necessidade). Atualmente o atual Casarão do Edifício Morada dos Cardeais é simplesmente uma “cumbuca” sem nenhuma beleza ou relevância histórica internamente. Externamente a fachada ainda mantém a maioria das suas características, inclusive os detalhes em ferro das varandas importados por H. Wilson.

Fachada Neoclássica já reformada, da Residência Cardinalícia, hoje Morada dos Cardeais.
Imagem: Google Maps 2011. 

Conclusão.
 Tais atitudes expõem de forma dramática a triste realidade de uma sociedade que não preserva, nem dá a atenção correta a sua História Visual. Essas construções simbolizam importantes testemunhos das transformações que ocorreram em Salvador durante as várias etapas de melhoramentos urbanos, estilos arquitetônicos, embelezamentos e modernizações; e a expansão da própria Cidade. Permitir que esse importante patrimônio simplesmente  desapareça é jogar a História de Salvador nos escombros da ignorância. E legar para todos os soteropolitanos um futuro que não conhecerá o passado da sua cidade.
Rafael Dantas, Bahia.
História. Universidade Federal da Bahia.

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Agradecimentos:
Fotógrafa Vitória Régia Sampaio.
Professor e Historiador Heraldo Lago Ribeiro.
Historiador - Museu Geológico da Bahia - Rubens Antonio.
Referências:


Artigos:
AZEVEDO. Thales. Ingleses, Árabes na Bahia. Jornal A Tarde, sexta-feira, 04/06/1993.
MOTA. Luciana Guerra Santos. Corredor da Vitória no século XX: Cem anos de Intensas Transformações Urbanas.  XIII Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional.
25 a 29 de maio de 2009. Florianópolis  - Santa Catarina - Brasil.


Sites Jornalísticos e imagens:
http://www.tribunadabahia.com.br/2012/04/11/agoniza-o-palacio-arquiepiscopal-da-bahia
Notas:
1. O Painel de Cândido Portinari encontra-se na Associação Comercial da Bahia.

*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas

sexta-feira, 29 de março de 2013

Parabéns Salvador. Uma Cidade "a mais de mil" há 464 anos.

Em um dia tão especial não poderia deixar de postar os parabéns para a cidade de Salvador, que tanto amo, e que foi razão principal para criar o blog e a página Eu amo a Bahia:

Parabéns Salvador, pelo seu aniversário. Cidade dos mais diversos personagens e paisagens. Parabéns pelos 464 anos.
Imagem e Desenhos: Rafael Dantas, Bahia.

Uma das razões para a criação do Blog Rafael Dantas, Bahia em 2010 foi justamente os vários problemas que atingem a velha Cidade do Salvador. A partir dessa realidade priorizamos denunciar e relatar esses problemas, no que toca especialmente nosso rico patrimônio histórico e ambiental.
Infelizmente com seus 464 anos, a velha “Cidade da Bahia” ainda carrega centenários problemas, e novos empecilhos que não fazem a cidade crescer da forma que deveria. Foi justamente utilizando a ideia de progresso, de crescimento, e a necessidade de se modernizar, de forma inadequada, ou destinada para poucos, que péssimos resultados marcaram a História de Salvador. O pior de tudo isso é que ainda hoje tal realidade pode ser vista e sentida por todos os soteropolitanos.
Cidade alegre sim, e com inúmeros exemplos de resultados positivos. Não é só de tristeza que vive a realidade de Salvador, por mais problemas que carregue. O mais marcante é a esperança presente no coração de todos os filhos desta terra que é abençoada por Todos os Santos.  E é tamanha alegria e esperança por melhorias, que faz Salvador ser muito mais que suas belezas naturais, arquitetônicas, e o tão conhecido carnaval. É seu povo, e suas mais diversas demonstrações de cultura que faz essa cidade continuar viva.
Vários foram os personagens que aqui passaram e deixaram sua marca. Na arte, na música, na política, literatura, culinária, entre outros. Salvador é uma mistura de perfis, esses tão atuantes em nossa História. Suas características geográficas e alguns de seus vários cartões postais, conseguiram atravessar os anos, décadas e séculos e se tornarem referência quando falamos de Brasil.
É muita coisa para lembrar em dia tão especial, mas o mais importante é não esquecer a pluralidade de fatos que é Salvador. Que suas ruas, becos, avenidas e ladeiras, continuem a ressoar os mais belos cantos de uma Cidade de mil ritmos.
Fico com a alegre lembrança da infância, de quando voltava das férias, passando pelas avenidas de Salvador, não tinha como disfarçar a alegria em dizer; “estou em casa”. E com muito prazer continuo em casa. 

Nos seus 464 anos as “Duas Cidades” se unem em uma só. Essa das mais diversas cores, influências, problemas, belezas e amores. Salvador da Bahia de Todos os Santos é e continuará uma cidade “a mais de mil”.
Obrigado Salvador.
Atenciosamente.
Rafael Dantas, Bahia.  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Os olhares sobre a Morte de Hugo Chávez.

Especial. Morre Hugo Chávez. A morte de Chávez despertou as mais diversas reações pelo mundo. Por isso as célebres pinturas para ilustrar o acontecimento:

Texto: Rafael Dantas, Bahia.

Sobre o olhar de Simón Bolívar, Três grandes pinturas representam as mais diversas reações depois da noticia da morte de Hugo Chávez.
Créditos: Simón Bolívar - Recorte do Olhar de Bolívar, Oleo de Ricardo Acevedo Bernal, Wikípédia. O Grito de Edvard Munch, Wikipédia. Mona Lisa, Leonardo da Vici, Wikipédia. Autorretrato, Rembrandt, Wikipédia.¹
 
Do luto e espanto de muitos (O grito de Edvard Munch), ao sorriso irônico de alguns (Monalisa, Leonardo da Vinci), ou mesmo a expressão de “não to nem ai” (Autorretrato, Rembrandt). O líder Venezuelano encerra sua passagem turbulenta em nossa História despertando as mais diversas reações Venezuela a fora.  Enquanto Lula diz: ‘tenho orgulho de ter convivido e trabalhado com ele pela integração da América Latina e por um mundo mais justo’. Obama diz que a Venezuela: ‘inicia um novo Capitulo em sua História’.
Hugo Rafael Chávez (1954 – 2013) conseguiu dividir a Venezuela e outras regiões do globo, entre “exaltados” acólitos, e “ferozes” adversários. O que não é nenhum espanto, perante um líder político de tamanha atuação, e perfil às vezes controverso como foi Chávez.
Governou a Venezuela desde 1999, antes disso tentou dar um golpe. No poder mudou a constituição, chegou a expulsar o embaixador dos Estados Unidos, disse que Bush era o diabo, ouviu um 'por qué no te callas?', e se aproximou até mesmo de Marmud Armadinejad, consolidou seu poder, e também enfrentou tombos.

Fato que não podemos esquecer é a presença do imortal Simón Bolívar, o grande herói venezuelano. Esse não só se fazia presente em pintura atrás de suas aparições nas fotografias e em telejornais. Como fazia parte do seu discurso, em uma tentativa de continuar o legado do grande líder que ajudou o processo de independência da América Espanhola. Na verdade Chávez remodelou, assim como outros tantos “lideres” em nossa História, os ideais de Bolívar ao seu bel prazer. Conseguindo claro, ao longo da sua vida pública, acertos e erros como qualquer outro personagem, que afetaram a vida de todos os venezuelanos.
Hugo Chávez e Simón Bolívar. Imagem Juan Barreto/AFP².
 
A foice da morte o retirou do grande palco político, e o levou para outro nível; esse ainda hoje um grande mistério. Porém sua morte nos direciona para outro grande mistério, o que será da Venezuela agora? A reposta para essa pergunta pode estar associada - não tenho a intenção de respondê-la ainda - a várias hipóteses, onde mais uma vez a "foices", acordos secretos ou quem sabe escancarados, ou palavras proferidas em meio ao luto. Poderão sim marcar o futuro da América, ou até mesmo do Mundo.
Já disseram que; “... Democracia, Ditadura, são “circunstancias passageiras””. “Passageiras” ou não as ações de Chávez sem dúvida permearão por muitas mentes, podendo inclusive levar que as palavras irônicas do fim do parágrafo anterior, tornem-se realidade em breve. Ou quem sabe surja em meio ao acontecimento lúgubre um novo líder venezuelano. O mundo acompanhará, assim como as obras de arte citadas, o futuro da Venezuela, agora sem Hugo Chávez, mas nunca sem o imortal e sempre citado Simón Bolívar. (pormenor do olhar de Bolívar em cima das três pinturas citadas).
 
     
Rafael Dantas, Bahia. Aluno de História, Universidade Federal da Bahia.



Referências:
¹ Imagens disponiveis em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal
² Imagem do artigo; MARINGONI, Gilberto. O Bolívar Simbólico. História Viva, Outubro de 2007, Ed. 48. http://www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/o_bolivar_simbolico_imprimir.html

Nota:
A expressão “não to nem ai” não faz nenhuma referência ao estilo ou técnica do grande pintor holandês Rembrandt. As obras de arte usadas nesse artigo, apenas ilustram o acontecimento.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

No Pêndulo da Morte. O Passarinho e a Sociedade

Especial - Meio Ambiente: Passarinho ficou durante dias pendurado por uma das pernas, agonizando por causa do lixo e da falta de educação presente em nossas cidades.

Texto: Rafael Dantas, Bahia. História UFBA.

Pássaro, 1861. João Francisco Lopes Rodrigues.
Museu de Arte da Bahia.
 
Quando o pintor João Francisco Lopes Rodrigues pintou em 1861 o quadro“Pássaro”, não poderia imaginar que sua tela um dia ilustraria a triste história que vou contar. O que prende o pássaro da pintura é um barbante. Hoje infelizmente não só barbantes, como outras inúmeras “armadilhas” aprisionam, mesmo sem querer, nossos pássaros.

Em nossas ruas podemos visualizar verdadeiras vitrines. O produto exposto é diverso e não é valorizado pelos humanos. É composto de pequenos objetos brilhantes, macios, resistentes ou mesmo atraentes, que para alguns animais, em um curto espaço de tempo pode significar a sobrevivência ou mesmo um caminho para a morte.

Na primeira postagem de 2013 vamos conhecer parte da história dos pais que sem querer mataram um filho e prenderam o outro também sem querer. Essa pobre vítima é apenas um caso relatado entre outros tantos casos, piores ou não, presentes nos mais diversos cenários urbanos.

A história.

Na quinta feira dia 17 de janeiro, o periquito que criamos se assustou com alguma coisa e voou em direção a alguns prédios no bairro da Barra (Salvador – Bahia, Brasil). Relato o ocorrido porque o sumiço do nosso periquito – de nome Teco – está diretamente relacionado ao achado do passarinho também no bairro da Barra. Na ânsia por achar logo nosso periquito saímos procurando desesperadamente por todo o quarteirão, já que ele não voa direito. Ao passarmos por uma das ruas, minha irmã percebeu que preso ao ar condicionado de um dos edifícios alguma coisa estava se debatendo. De imediato ela não percebeu que era um passarinho, ainda mais na correria para tentar achar Teco.

 
Região onde Teco foi visto.

No sábado (dia 18) minha mãe que também saiu à procura de Teco, avistou nesse mesmo lugar alguma coisa se debatendo, como já estava anoitecendo, ela pensou que era um morcego. No domingo dia 20, meu pai e minha irmã saíram mais uma vez para procurar o nosso periquito desaparecido. Quando minha irmã ao perceber que a “coisa” continuava a se debater, perguntou para meu pai se era um passarinho, meu pai imediatamente confirmou.
 
No quarto andar do prédio
estava o passarinho.
Imagem: Rafael Dantas, Bahia.

Ali estava um passarinho pendurado por sua própria perna de cabeça para baixo, parecendo um pêndulo. Ele não se debatia mais, porém ainda estava vivo ao sopro do vento.

Quando voltaram para casa eu e minha mãe ficamos sabendo da história, e fomos tentar resgatar o pássaro. Ao chegarmos presenciamos o sofrimento de um animal que nasceu para voar, aprisionado em seu próprio ninho, por uma de suas pernas. O ar condicionado – onde o passarinho estava preso – era de um apartamento que estava a venda – existia uma placa de venda - e não tinha ninguém lá. Por coincidência, milagre, ou quem sabe “já estava escrito”, o dono do apartamento chegou na mesma hora que eu interfonei para um dos apartamentos, na esperança de salvar o pássaro.

Ao chegar no quarto andar – depois de ter falado com o dono - vi a triste situação. O pássaro estava preso por uma das pernas no próprio ninho feito pelos pais. No ninho tinha tudo, cabelo, barbante, linha de costura, algodão, espuma, tecido, restos de sacos plásticos, pequenas cascas de árvores usadas em jardinagem, fio dental, e galhos de árvores, entre outras coisas. Tirar o pássaro desse emaranhado foi terrível, afinal ele estava bem preso, e tive que ficar com boa parte do corpo para fora da janela com os braços para o alto desmontando o ninho e segurando o pássaro. Depois de alguns minutos, o retiramos e levamos para casa. Registro a atenção e torcida dos donos do apartamento, para que conseguíssemos salvar a inocente vítima.

Preso ao ninho, por causa do lixo, o passarinho ficou por dias assim.
Imagem: Rafael Dantas, Bahia

Fato que merece destaque é que os pais - do passarinho pendurado - acompanharam todo o salvamento, inclusive cantando e voando em volta dele. Tudo indica que durante o tempo em que o pássaro estava preso, os pais o alimentaram ou tentaram alimentar, mesmo de cabeça para baixo. Em nenhum momento eles abandonaram o pequeno “sanhaço” do gênero Tharaupis. Podemos afirmar que o pássaro deve ter ficado preso de cabeça para baixo por mais de cinco dias, ou quem sabe mais. Um absurdo que poderia ser facilmente evitado.

Em casa, observamos os detalhes dos danos causados ao pássaro. A perna que estava presa, infelizmente está com princípio de gangrena, muito inchada, e em uma posição inadequada, devido o tempo que ele ficou pendurado no ninho. Ao retirarmos o resto do ninho preso a perna, percebemos que o irmão dele morreu ainda menor e já há algum tempo. O que mais chamou a atenção foi o fato do irmão ter engolido o barbante que estava preso à perna do passarinho resgatado. Os dois irmãos permaneceram unidos, só que um morto no ninho e o outro vivo preso no barbante engolido pelo irmão e em outras “armadilhas urbanas”.

O irmão do pássaro salvo. Detalhe para o pedaço do barbante que foi engolido.
Imagem: Rafael Dantas Bahia.
A situação da perna do pássaro.
Imagem: Rafael Dantas Bahia.
A história relatada nesse blog mostra um caso entre milhares de outros que sabemos que existe, e outros que jamais conheceremos. O sanhaço salvo não anda e não voa, está vivo, porém está se alimentando com a ajuda da minha mãe. Os dejetos que estavam no ninho continuarão sendo descartados nas ruas, e mais pássaros e outros animais serão vítimas dos racionais humanos. Outros tantos cadáveres e amputados - como os pobres pombos sem perna - continuarão compondo os mais diversos cenários urbanos, e vários outros pássaros que deveriam estar voando, continuarão presos feito “pêndulos ao vento”, a espera de mudanças significativas em nossa sociedade, esta infelizmente presa a ignorância e insensibilidade, onde os “ventos” não são nada bons.;.  

O Sanhaço (que ganhou o nome de Hórus) infelizmente morreu nas mãos de minha mãe semanas depois. E Teco, depois de semanas desaparecido, foi encontrado.

 

Rafael Dantas, Bahia.