segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Persistência da Intolerância: A tristeza de uma campanha eleitoral.

George Grosz - Explosion. 1917.
Imagem: Museum of Modern Art (Moma)
Texto Rafael Dantas.
História. Universidade Federal da Bahia.
 
Arrependo-me de não ter escrito e publicado esse texto antes, afinal o que me motivou foi o deplorável “debate” que presenciei em um grupo no facebook um dia antes das eleições no 2° turno. Mesmo assim publico-o com a doce esperança de instigar a reflexão em alguns, nessa reta final ou em qualquer outro momento, onde a intolerância se faz presente. 

Realmente é interessante observar (deplorável levando em consideração alguns constantes comentários presentes nessa rede social) como os que se dizem defensores “disso e daquilo” e de outras tantas liberdades, tratam aqueles que pensam diferente dos demais. E como vários estão despreparados para conviverem em sociedade.

Respeito, tolerância, liberdade de expressão, um bom diálogo, onde estão?
 
O que vi em menos de um mês foi um verdadeiro espetáculo de horrores, onde são claras as demonstrações carregadas de um instinto de violência extrema e falta de educação medonha, que se fossem transladadas para o diálogo ao vivo poderiam significar atos de total covardia, onde provavelmente sangue seria derramado sob a justificativa débil de defender candidatos, alçados a categoria de santos, e seus respectivos projetos políticos.
 
Estaríamos discorrendo com bobas crianças? Adolescentes rebeldes em plena puberdade na ânsia para usar suas emoções ao bel-prazer? Ou estamos conversando com cidadãos conscientes que vivem em uma sociedade democrática (e ressalto isso), por mais que não pareça em determinadas situações, onde a diversidade sempre existirá!
 
Na busca pelo espetáculo gratuito e pelo menosprezo do outro a humanidade já fez horrores, vejo que em pleno o século XXI, em um espaço virtual, a história se repete. Fora dele os horrores continuam existindo. Envergonha-me ver várias pessoas das mais diversas áreas se comportarem como quase ditadores que não perdem a chance de impor sua opinião e seus apaixonados argumentos, expondo a sede pela barbárie e aviltamento presente em escritos e falas lastimáveis.
 
Quem prega o não respeito ao outro, como vi nesses dias, abre espaço para inúmeras formas de tratamento, que podem variar das mais simples demonstrações de repúdio, asco, ou mesmo, a sinais de verdadeiros pedidos de linchamento ou morte “adoçados” na forma de ironias (como vi em uma publicação meses atrás de um futuro professor); ocultados em sentimentos que dormem enquanto os dedos digitam violentamente no facebook.
 
Se querem criticar algo (ou mesmo destroçar opiniões apresentadas) argumentem, fundamentem seus votos e pontos de vista em um ou no outro candidato; ou em qualquer questão em algum debate. Construam teses, ou não, sobre os mais diversos assuntos, mas respeitem o outro! O saudável debate político não pode ser realizado com ações desprezíveis como as que observamos nessas eleições. Pena em ver a fraqueza e a tristeza de opiniões que giravam em torno de preconceitos e generalizações carregadas de tamanho ódio. Colocando o outros sempre como inimigo, ou coisa pior, só por apoiar algum candidato.
 
Realmente recuso-me a perder tempo em debates onde os donos da “verdade” se colocam como arautos da “razão”. Recolho-me, não por temer o enfrentamento daqueles que se elevam a tão alto desnível de “esperteza e ilusão de soberania”, mas sim por constatar que onde existe a intolerância, e principalmente a falta de respeito, não nascerá e não existe espaço para a ideia de liberdade, por mais que alguns se intitulem defensores dela.
 
Recolho-me, mas não desisto!
 
Um bom Domingo para os eleitores da Dilma e do Aécio, os que vão votar Nulo, justificar ou não votar.
 
Atenciosamente.
Rafael Dantas.

Infelizmente a intolerância e o preconceito persiste depois das eleições.

Observação:
A pintura de Grosz retrata os horrores da I Guerra Mundial, trazendo a barbárie do momento com prédios demolidos, incêndios e corpos mutilados. Foi usada para ilustrar o caos durante as eleições, especialmente do 2° turno, onde a intolerância marcou presença.

***
 
 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A Fragilidade dos Inocentes e a ascensão dos Teóricos de Tudo

Esse pequeno texto mostrará como existem inocentes perante os maliciosos TT. Como são frágeis a discursos bonitos e bem elaborados. Como são suscetíveis a palavras fortes e discursos que explicam tudo e criticam o todo. E como são controlados sem saber.
 
Imagem de Saturno comendo seu filho. Ladeado por Marina Silva, Dilma Rousseff e Aécio Neves. Os Teóricos de Tudo se comportam como “devoradores” de quem pensa diferente. Para eles só existe uma verdade, um caminho, que é sempre o deles. Em época de eleição observamos o triste discurso, beirando o fanatismo, promovido por cegos militantes movidos pelos mais diversos interesses na defesa do que eles acham que é o correto. Créditos: Saturno devorando um filho – Francisco Goya. Recortes: Marina Silva – Thays Cabette, Dilma Rousseff – Wilson Dias, Aécio Neves – Marcelo Sant’Ana/Agência de Notícias PSDB-MG. Imagem/Reprodução: Blog Rafael Dantas, Bahia.
 
Texto Rafael Dantas.
 
Já começo afirmando que todos nós temos um pouco de inocência, nos iludimos com o novo, com o “belo”, com o inédito, com o isso e o aquilo. Decepções fazem parte da caminhada de cada um, onde às vezes de tanto nos decepcionarmos nos entregamos a primeira ilusão que aparece. No entanto nunca poderemos ter certeza se o que enxergamos é realmente o que dizem ser. Em diversas situações as máscaras caem imediatamente, em outros casos permanecem fixadas em rostos incertos e disformes que variam de acordo com o momento e os interesses em questão. Para cada situação assumem uma face com um novo discurso, que consegue atingir muitos, alguns se tornarão fieis que seguirão sem saber o caminho que os TT querem. Em outros casos possuem um discurso mais radical e fixo se comportando como “devoradores” de quem pensa diferente.
 
Os TT (Teóricos de Tudo) estão em todos os lugares especialmente na militância política. Em muitos casos possuem ou reproduzem um discurso que sempre aponta um único erro, uma única causa, chegam a reconhecer outros pontos a ser criticado, mas possuem um único objetivo: provar que são os donos da verdade. Para isso utilizam um discurso bem elaborado, em alguns casos até bonito, que se resume a provar que sempre estão certos, inquestionáveis.
 
E como muitos são “inocentes” sempre buscando a verdade, ou o que seria ela, caem como presas em mandíbulas monstruosas almofadadas por falsas respostas. Antes de seguir um TT ou qualquer outra pessoa, busque, pergunte, analise com calma e veja com seus próprios olhos. Desconfiem daqueles que sempre estão prontos para argumentar sobre qualquer notícia. Que sempre produzem notas sobre tudo, às vezes apelativas, que sempre impõem uma resposta e nunca perguntam o por quê.
 
O que observamos hoje é que ninguém pergunta o porquê das coisas. Sempre estamos prontos para lançarmos uma opinião, uma verdade, e quem pensa diferente que morra. Cada um possui sua ideia do que é a verdade, o certo e o errado, e alguns ainda possuem a ousadia de querer impor o que pensa. Por incrível que pareça muitos se deixam levar pelos TT, reproduzindo inocentemente ou não pensamentos sem nenhum embasamento.
 
Alguns se acham fortes e espertos o suficiente para não cair nessas armadilhas. Acreditam que jamais serão marionetes dos mais diversos interesses existentes. Coitados, já estão presos em finas cordas controladas por maliciosos sabichões. Viraram rebanhos em constante pastagem até o momento do “abate”.
 
Depois da incansável busca pela “verdade” das coisas e ter finalmente encontrado um TT mor, os inocentes começam a reproduzir o que os maliciosos Teóricos de Tudo mandam ou aconselham. Sem saber acabam usando os óculos de uma só lente não enxergando a diversidade de outrora.
 
Arautos da verdade e de todas as respostas não existem. A fragilidade dos inocentes está em achar que são imunes aos mais diversos interesses existentes, deixando-se levar pela preguiça de não perguntar o porquê das coisas.

Observações:
O uso da obra de Francisco Goya é ilustrativo representando a violência dos militantes contra quem pensa diferente deles. O trabalho de Goya mostra o titã Cronos, Saturno na Roma Antiga, devorando seu filho. O titã comia seus filhos por medo de perder o trono. Foram representados somente os três candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto.
Texto também publicado no Blog:

Texto também publicado na página do Blog no facebook: [clique aqui]
Curta o Blog no facebook: Blog Rafael Dantas, Bahia. [clique aqui]


***

Referências de Imagens:

F.G.:http://pt.wikipedia.org/wiki/Saturno_devorando_um_filho#mediaviewer/Ficheiro:Francisco_de_Goya,_Saturno_devorando_a_su_hijo_(1819-1823).jpg
M.S.:http://pt.wikipedia.org/wiki/Marina_Silva#mediaviewer/Ficheiro:Marinavaivotar.jpg
D.R.:http://pt.wikipedia.org/wiki/Dilma_Rousseff#mediaviewer/Ficheiro:Dilma-julho2010.JPG
A.N.:http://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A9cio_Neves#mediaviewer/Ficheiro:A%C3%A9cio_Neves_2014-02-20.jpg

*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas

sábado, 7 de junho de 2014

Machado de Assis: Simplificação para o século XXI

Observações sobre o projeto de Patrícia Secco que visa “simplificar” a obra de Assis. E sobre nossa atualidade destrutiva e não contemplativa.

Machado de Assis Simplificado. Imagem de Marc Ferrez 1890.
Em simples reprodução feita no Paint especialmente para o texto.
Blog Rafael Dantas, Bahia.


Texto: Rafael Dantas.
História.
Universidade Federal da Bahia.
Em tempos atuais muitos são guiados pelo imediato, pelo espetáculo – algumas vezes onde não existe, pelo não contemplativo, por uma corrida descontrolada pelo o que cada um considera “modernidade”. Não se tem tempo mais para nada, é tudo dinheiro e mais dinheiro.
 No meio dessa corrida altamente destrutiva e reconstrutiva nos escombros daquilo que não é mais aceito, complicado demais, velho, ultrapassado, perdem-se as matas, o patrimônio histórico, clássicos literários e musicais, e por ai vai. Entre tudo isso surge a grande discussão sobre a simplificação de Machado de Assis, José de Alencar e outros autores.
Se a ideia da autora Patrícia Secco é facilitar o acesso a leitura, trocando palavras por outras mais “simples”, e a pontuação das obras de Machado, não parece que teremos uma facilitação na leitura das obras de Machado de Assis escritas no século XIX, e sim uma simplificação em uma releitura Machadiana no século XXI. Entendo e até posso parabenizar Secco pelo projeto que visa o acesso a leitura, em um país onde muito não leem. Contudo, pelo o que foi divulgado em diversos jornais até agora, a árdua tarefa de Secco pode simplificar ao ponto de não termos mais o autor na obra, e sim interpretações.
João C. C. Rocha esclarece que não condena os esforços de “adaptação” para públicos mais amplos, elencando vários exemplos, nacionais e internacionais[1] já realizados. Mas, em relação ao trabalho de Secco: “parece ser completamente alheio à literatura do autor de O Alienista.”
A palavra “sagacidade” vira “esperteza” (no projeto de Secco). “Esperteza evoca o célebre jeitinho brasileiro e seu sentido nada tem a ver com o contexto das quatro ocorrências da palavra na obra (O Alienista)”
João Cezar de Castro Rocha professor de literatura comparada da UERJ e autor de ‘Machado de Assis: Por uma poética da Emulação’ Editora Civilização Brasileira. A convite do Estadão. [2]
Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade cientifica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”.
José Maria e Silva. Jornal Opção, Edição 2028.
[3]
Não entendam minhas palavras como não adeptas as necessárias mudanças da nossa sociedade.  Apenas reflito que certas coisas, como a obra de Machado de Assim, deva continuar como está, e não adaptada ao ponto que possa girar em torno do “futebol, carnaval e Funk[4]...” - só falta acontecer isso.  Que se invista em uma verdadeira Educação, em reais e significativas mudanças sociais - não paliativos. Para que ai sim os leitores possam finalmente se deleitar nas obras de Assis, Alves, dos Andrade, Amado, Meireles, Alencar, Rosa, Barreto, Bandeira, Quintana, Lobato, Ramos, Abreu, Lispector e outros tantos escritores brasileiros.
“O estilo de Machado é direto e coloquial. Alterando-o, nada restará do escritor”
Alcides Villaça da USP. Em Tribuna do Norte. 24 de maio de 2014.[5]
Em relação a presente dificuldade em ler os livros de Machado de Assis, proponho que a próxima edição traga as palavras ou termos considerados mais difíceis destacados - e não modificados - e com o significado ao lado. Uma consulta no dicionário já era o suficiente, mas, para facilitar acho que isso já ajuda e muito.
 Quando Ubaldo Ribeiro escreve (sobre o caso): “Mas, quanto aos autores vivos, pode-se incentivá-los (ou obriga-los, conforme o momento) a ater seus escritos ao Vocabulário Popular Brasileiro,”[7]. Imagino uma realidade onde parece que cada vez mais o individuo está perdendo suas características, e deixando sua capacidade inovacionista e criativa, para tentar se adequar ao geral ou popularizar seus trabalhos. Onde fica o perfil de cada um? Onde fica os estilos? Será que no futuro o “eu” de cada um não existirá mais? Tudo será ou tentará ser a mesma coisa? Se as coisas continuarem assim chegará o dia em que teremos o triunfo dos medíocres, respaldados quem sabe por algum governo, isso se esses dias medíocres já não estão acontecendo. Perguntas e mais perguntas que aos poucos serão respondidas pela própria sociedade. Que de forma alguma se ligam obrigatoriamente a polêmica do projeto de simplificar Machado de Assis. Entre exageros ou quem sabe previsões, ou visões realistas da sociedade, Ubaldo Ribeiro (e outros) mais uma vez escreve trazendo luzes entre lanternas que também possuem luzes, mas às vezes com focos desfocados.
“O foco específico do projeto é a doação de livros para pessoas que não tiveram oportunidade de estudar ou tiveram acesso a um ensino de baixa qualidade”[8].
Patrícia Engem Secco. Especial para o UOL[9].
 O problema não está na distribuição de milhares de livros - isso é ótimo, fantástico - e sim no que está sendo distribuindo - com dinheiro público (mais de 1 milhão). A substituição de palavras não fará o aluno, ou qualquer outra pessoa, gostar de Machado de Assis. Só se gosta de um autor conhecendo o que ele escreveu, identificando alguma coisa que nos aproxime da obra.  Que se distribuam “chaves” para facilitar, auxiliar na leitura de Machado, mas não modificar o escrito da forma apresentada até agora.
Deve-se mostrar o encantamento que a leitura proporciona, a mágica das palavras, as possibilidades presentes na leitura de cada livro. Ler é uma tarefa que exige atenção e dedicação. Por isso que iniciei o texto trazendo a questão contemplação e hoje contemplar algo é cada vez mais raro.

Curta o Blog no Facebook: Blog Rafael Dantas, Bahia.
Indicamos a página: Nota do Tempo.




[1] Em http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,especialista-em-machado-de-assis-analisa-iniciativa-de-simplificar-obras,1164214
[2] http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,especialista-em-machado-de-assis-analisa-iniciativa-de-simplificar-obras,1164214
[3] http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/discipula-de-paulo-freire-assassina-machado-de-assis-4399/
[4] Não afirmo que intenção de Secco seja essa.
[5] http://tribunadonorte.com.br/noticia/machado-de-assis-simplificado/282731
[6] http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/luis-antonio-giron/noticia/2014/05/nao-toquem-em-bmachado-de-assisb.html
[7] Sobre a polêmica Ubaldo Ribeiro Escreve: http://oglobo.globo.com/opiniao/reescrevendo-historia-12671527
[8] As obras modificadas por Secco e equipe estão em: http://www.reciclick.com.br/biblioteca-digital/
[9] http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/13/opiniao-machado-nao-gostaria-de-permanecer-desconhecido-para-quem-nao-le.htm

***
As melhores avaliações sobre as modificações realizadas por Secco e equipe foram a de José Maria e Silva e João Cezar Castro Rocha.
O interessante texto de Danilo Venticinque foi um dos poucos (único encontrado) a apoiar o projeto de Patrícia Secco.

“... ler é mais compensador que jogar videogame ou assistir a uma série de televisão.”
Luís Antônio Giron. Revista Época. 29 de maio de 2014.[6]

Referências e indicações sobre o caso:
*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas

terça-feira, 1 de abril de 2014

Morre Jacques Le Goff. Responsável por uma nova percepção da Idade Média.

"Em 2004 recebeu o prémio Dr. A. H. Heineken de História, atribuído pela Academia Real das Artes e Ciências dos Países Baixos, a declaração do júri dizia que Le Goff “mudou a nossa percepção da Idade Média".¹

Morre Jacques Le Goff um dos maiores historiadores do século XX.
 Desenho: Rafael Dantas. 1 de Abril de 2014. 
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia.

1 de abril de 2014. Morre o historiador francês Jacques Le Goff.
Singela homenagem a um dos nomes mais marcantes e importantes da historiografia do século XX. Deixa um importantíssimo trabalho espalhados em mais de 40 livros, além de outras publicações.

Apresentamos o texto escrito por Luís Miguel e Isabel Salema publicado no site http://www.publico.pt/cultura sobre Le Goff. Disponível em:


¹http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-o-historiador-jacques-le-goff-1630555

Atenciosamente:
Blog Rafael Dantas, Bahia.
Desenho da Imagem: Rafael Dantas.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Salvador 465 anos de Fundação. "Desenho sem fim de pura beleza, História, e coisas da Bahia"

Mensagem para a Cidade de Salvador no seu aniversário de 465 anos. "Desenho sem fim de pura beleza, História e coisas da Bahia".
Texto: Rafael Dantas.
Parabéns Salvador pelos 465 anos de fundação. Desenho de Rafael Dantas do Elevador Lacerda e de parte da Cidade Alta e Baixa, com o Mercado Modelo (antiga Alfândega) e um velho saveiro da Bahia no mar do Porto de Salvador.
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia / Março de 2014.


Hoje é um dia especial. Salvador Cidade encantada mergulhada em encantos e os mais belos e saudosos cantos, completa 465 anos de fundação.

 Belíssima "Lisboa revisitada sudanesa, [...] Roma Negra encravada no ocidente [...]", como escreveu e cantou Roberto Mendes e Jorge Portugal. Salvador continua a encantar e cantar por todos os lugares sua rica história e o marcante sorriso do seu povo.

 Chamada de "Cidade da Bahia" por muito tempo, Cidade das 365 igrejas, terra de ladeiras, casarios, fortes e marcantes vultos cravados nas amarelas páginas da sua história, Salvador da Bahia é uma grande mistura, desenhada e construída por muitos, sempre abençoada por Todos os Santos.
 Infelizmente não é só de alegrias que vive Salvador, no meio de belezas temos tristezas e ruínas que se arrastam por séculos. Mesmo assim, graças a seu povo e seus defensores, a bela cidade fortaleza continua bela.
 São simples palavras perante a importância da data citada. Mas o que realmente importa é a sinceridade dos mais diversos votos em meio toda a poesia e prosa circulante nesta terra sempre amada e admirada. Realmente só poderia ser "coisa da Bahia".

Em postagem especial será publicado três textos no Blog discutindo as modernizações do final do século XIX e inicio do XX em Salvador, na conhecida Belle époque*

 Atenciosamente,
Blog Rafael Dantas, Bahia.
Curta no Facebook > (Bloga Rafael Dantas, Bahia)

domingo, 23 de junho de 2013

Manifestação Salvador 22 de Junho de 2013. Memórias do confronto no Iguatemi, e do dia que a Paralela foi tomada.

Mais um dia de manifestações em Salvador. Depois de uma longa caminhada problemas no Iguatemi, Barris, e caminhada até a Paralela.
Manifestantes indo para o Iguatemi. Dia 22 de Junho de 2013.
Imagem: Lúcio Távora | Ag. A TARDE.

Rafael Dantas.
História UFBA.
Depois de sairmos do Campo Grande (umas 15 horas) passando pelo Vale do Canela, Garibaldi e ACM, chegamos (umas 17 horas) no Iguatemi. O clima de paz e união da manifestação, que deve ter reunido mais de 15 mil pessoas, foi quebrado por um combate covarde. Mais uma vez os acontecimentos do 20 de Junho de 2013 marcaram presença http://rafaeldantasbahia.blogspot.com.br/2013/06/manifestacao-salvador-memorias-do-20-de.html. Durante a longa caminhada encontramos um grupo que vinha da região dos Barris falando que tinham sido reprimidos pela polícia. E que outras manifestações estavam acontecendo em outros bairros de Salvador. Segundo relatos de alguns dos manifestantes o que aconteceu nos Barris foi uma "caçada".
Mapa do trajeto da manifestação em Salvador. Campo Grande/Iguatemi. Campo Grande/ Paralela. Campo Grande/ Barris. Dia 22 de Junho de 2013.
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia.
A manifestação que saiu do Campo Grande as 15 horas parou em frente ao Shopping Iguatemi - que foi um grande erro em minha opinião. A ideia surgiu de um grupo que estava na frente da manifestação. Muitos queriam continuar (Paralela, Tancredo Neves), outros seguir um novo destino, ou discutir alguma coisa (como os motivos da manifestação); mas o que fizemos foi ficar parados e cantar o Hino Nacional. Assim ficamos por alguns minutos, até percebemos alguns pequenos tumultos de grupos isolados. Falaram que parte dos manifestantes queriam fechar a outra pista da ACM, e a Choque não deixou, começando o confronto. Outros disseram que uma pessoa (não sei se era ou não um manifestante) jogou uma bomba em direção a PM.
Manifestantes na frente do Iguatemi. Dia 22 de Junho de 2013.
Imagem: Lúcio Távora | Ag. A TARDE.
De uma hora para outra um nevoeiro de gás e bomba de mil, modificou a realidade pacífica da manifestação. Várias pessoas tentaram se refugiar em frente ao Iguatemi, (que fechou as portas) enquanto outros correram para a garagem do Shopping, para a encosta do Caminho das Árvores, para a ACM ou em direção a Paralela. O Iguatemi parou.
Estava na frente do Iguatemi quando as bombas e o gás obrigou que saíssemos correndo. Várias pessoas ficaram sem ar, inclusive eu, e corremos para o Capemi, em um quase cenário de guerra.  Durante uma hora ou mais esse foi o desfecho da manifestação.
Enquanto estávamos refugiados na encosta do Caminho das Árvores, ouvimos as mais diversas histórias que relatavam as cenas de violência, a contrariedade da depredação, a necessidade de continuar as manifestações; e a revolta dos manifestantes com parte da imprensa que considera os manifestantes como baderneiros ou vândalos.
Quando percebemos que a situação estava mais “tranquila” saímos da encosta do Caminho das Árvores (atrás do Shopping Iguatemi) e voltamos para a Avenida ACM.  Nesse momento encontramos um grupo de manifestantes, que acompanhou todo o percurso, relatando os vários interesses partidários de alguns dos envolvidos na manifestação e nas discussões realizadas no Passeio Público. Um manifestante que estava nos Barris também afirma que um grupo quis dividir a manifestação.
Seguimos para a ACM quando inesperadamente encontramos um grupo de manifestantes (uns 200) vindos do Campo Grande. Mesmo sendo um grupo menor, portanto mais vulnerável a um ataque da polícia, a organização e a paz marcava presença. Acabamos indo com esse grupo em direção a Avenida Paralela. Durante todo o longo percurso, o grupo mostrou sua força sem NENHUM ato de violência ou depredação, assim como na primeira manifestação. Exceto no pós confronto no Iguatemi, onde foram registrados atos de depredação.
A Avenida Paralela parou.   
Seguindo pela Paralela encontramos o outro grupo de manifestantes (acredito que faziam parte da primeira manifestação) que tinham tomado a pista da Avenida Paralela sentido ACM.
O encontro foi emocionante. A Paralela estava tomada! por pessoas lutando por um país melhor. Tudo na maior paz!
Manifestantes ocupam a Avenida Paralela no sentido ACM.
O fogo da barricada foi apagado em seguida pelos próprios manifestantes.
Imagem: Pablo Reis. Bahia Todo Dia.
Na Avenida Paralela, próximo a Odebrecht, os dois grupos fizeram uma barricada bloqueando o trânsito nos dois sentidos.  Por volta de umas 21 horas, eu e mais dois amigos, Silvio dos Reis e Macio Ventura, decidimos voltar para o Iguatemi (tentar pegar um ônibus). A ideia do grupo era bloquear o trânsito até mais ou menos 21h40min; fazendo intervalos de 5, 20 minutos, dando passagem para os carros.
Na volta para o Iguatemi, ainda na Paralela, encontramos uma equipe da TV Bahia, com a repórter Georgina Maynart. Ela nos perguntou o que tinha acontecido, e falamos que a manifestação que foi até a Paralela, aconteceu na maior tranquilidade sem NENHUM ato de vandalismo ou depredação; depois disso a equipe continuou indo em direção a manifestação.
Já no Iguatemi percebemos que o trânsito estava normal, provavelmente a manifestação tinha acabado. 
A manifestação do sábado mostra que não podemos parar o movimento. Mas infelizmente está ficando visível que algumas pessoas, grupos, estão tentando dar outro sentido nos protestos. Falam de infiltrados da polícia, de partidários do governo, de bandidos, e por ai vai. Tudo isso começou de forma livre, espontânea, e ganhou projeção imaginável. Nesse momento temos que ter muito cuidado, com os grupos que estão surgindo, ou tomando direta ou indiretamente a liderança das manifestações. Vamos ficar atentos (não paranoicos) a quem está segurando os megafones, quem fica a frente das manifestações, etc. Essas manifestações podem fazer com que esse “gigante” dê uma nova cara para o Brasil, assim como pode direciona-lo para um abismo de interesses, onde mais uma vez perderemos.
Agora que começamos não podemos parar. O momento é de união. E quando cito união é de todos os brasileiros, claro, inclusive a Polícia. Não podemos buscar inimigos, a violência, a desunião, e não buscamos, por mais que queiram assim divulgar. Se não compreendermos o poder que temos, em nada adiantará correr tanto e morrer na linha de chegada.

***

*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog.
Atenciosamente Rafael Dantas.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Manifestação Salvador. Memórias do 20 de Junho de 2013.

A quinta feira poderia acabar em paz. Porém além da beleza da manifestação, a repressão e depredação marcaram presença.
Manifestantes no Campo Grande, antes de começar a passeata rumo a Fonte Nova. Ainda nesse momento tínhamos um Campo Grande de paz. Ao anoitecer a realidade era outra.
Imagem: Teo Henrique | Ag. A TARDE.


Texto: Rafael Dantas, Bahia.
História UFBA.


Quando chegamos ao Campo Grande (eu e mais alguns amigos) percebemos a dimensão do protesto, principalmente na região em frente ao Teatro Castro Alves em direção a Avenida Sete de Setembro. Mais ou menos depois das 15 horas começamos a caminhar em direção a Fonte Nova, em um clima te total harmonia, cantando o Hino Nacional e outros gritos de protestos. A presença de grupos representando partidos políticos (PSTU e PSOL, que eu vi) não foi bem recebida nesse momento; e muitos manifestantes vaiaram tais grupos, mas sem nenhum ato de agressão. (Clique nas imagens para ampliar)
Mapa do percurso da Manifestação Passe Livre Salvador.
Imagem: Blog Rafael Dantas, Bahia
 
Quando a multidão passou em frente à Rua Politeama de Baixo grande parte dos manifestantes desceram em direção aos Barris (para chegar a Fonte Nova) enquanto outra parte foi caminhando pela Avenida Sete. Chegando à Avenida Joana Angélica o que aconteceu foi uma verdadeira guerra. Mas não estava lá (fui para os Barris) fiquei sabendo por amigos. Algumas pessoas falaram que infiltrados tentavam prejudicar a manifestação. E representantes de partidos políticos tentavam tomar a liderança do protesto. 
Confronto entre a Polícia e os Manifestantes na Avenida Joana Angélica.
Imagem: Eduardo Martins | Ag. A TARDE.

Ainda sem nenhum tumulto, em um clima de total paz, quem desceu pelo Politeama (grande parte dos manifestantes) chegou ao Vale dos Barris, passando próximo a Primeira Delegacia. Seguimos em direção ao Dique do Tororó. Logo depois da delegacia começamos a visualizar a dimensão da manifestação. Divulgaram 20 mil pessoas, mas acredito que deve ter ultrapassado 40 mil manifestantes, ou quem sabe mais. Percorrendo toda a Avenida Vale dos Barris, chegamos a Praça João Mangabeira (onde ficam umas quadras de futebol) e continuamos em frente.
A manifestação que até então era caracterizada pela paz, foi drasticamente direcionada para atos de repressão pela polícia, que impediu os manifestantes que seguiam para o Dique. Os manifestantes que conseguiram ir além da Praça João Mangabeira, foram impedidos pela policia Militar e Cavalaria. Foi o inicio de cenas absurdas.
http://www.youtube.com/watch?v=GOnEOSnLbwg&hd=1
Vídeo You tube. Renan Santos"Passe Livre Salvador".
 
 
Ainda estava na Praça, ao lado de umas das quadras com mais dois amigos, quando ouvimos o estrondo das bombas e a fumaça tomando todo o lugar. Milhares de manifestantes começaram a voltar para o Vale dos Barris correndo, e outro grupo dispersou para a Avenida Centenário. Foi uma multidão, e o desespero tomou conta da situação. Essas primeiras ações da Policia Militar, conseguiram fazer com que os manifestantes recuassem, e boa parte deles voltaram para o Vale dos Barris; enquanto outros ficaram e tentaram seguir em direção ao Dique. Os que ficaram na região próxima a Praça sofreram com as bombas, as balas de borracha, o gás lacrimogêneo e o spray de pimenta. Os que correram, voltando para o Vale, tiveram que enfrentar o nevoeiro de gás lacrimogêneo que o vento trazia. Muitos manifestantes correram em direção aos Barris, enquanto outros continuavam descendo pelo Politeama. Durante horas essa foi a situação da manifestação, ficando clara a atitude desnecessária da PM, tratando os manifestantes de uma forma absurda.
À medida que mais bombas, gás e tiros de borracha eram disparados contra os manifestantes, o recuo ficava claro. Mas a maioria dos manifestantes persistiram e tentaram por diversas vezes furar o bloqueio, sendo reprimidos com mais gás de pimenta, bombas e tiros de borracha. Em determinado momento um grupo de manifestantes conseguiu fazer com que a cavalaria recuasse.  
Voltando para o Vale dos Barris decidimos seguir novamente em direção ao Dique, mas logo fomos impedidos pela polícia, e o tumulto se generalizou. Refugiamos-nos temporariamente nos matos que ladeiam a avenida, próximo a um córrego e um outdoor. Enquanto algumas pessoas subiam as escadarias que levam ao Garcia.
Sem poder continuar, voltamos para o Vale. Nesse momento percebemos os primeiros atos de depredação, e por mais que a maioria dos manifestantes repudiassem os atos, inclusive pedindo para que não fizessem, ou mesmo vaiando; alguns dos envolvidos continuaram.
Vídeo - Gás lacrimogênio no Vale dos Barris - Repórter Silvia Resende. Ibahia.

Mais uma vez voltamos para o Vale, e decidimos voltar em direção a Praça na expectativa de chegar ao Dique. Chegando à Praça, não coseguimos continuar. Uma nuvem de gás lacrimogêneo, que parecia pimenta, fez com que a maioria recuasse. Nesse momento sentimos realmente, de forma muito mais intensa que das primeiras vezes, o terrível efeito do gás. Na volta encontramos quatro pessoas desmaiadas, e uma garota passou com um tiro de bala de borracha na nádega. Cachorros e gatos corriam desesperadamente no meio da manifestação, ou entre os carros estacionados, por causa do barulho.
 
Por volta de umas 17, 18 horas muitos dos manifestantes começaram a voltar para o Vale dos Barris, em direção ao Politeama. A polícia pressionava os manifestantes em direção ao Centro. Chegando ao Politeama em frente ao Orixás Center, bombas eram jogadas pelos policias que estavam na Avenida Sete, obrigando que os manifestantes corressem para a Rua Direita da Piedade (passando pelo viaduto) em direção ao Instituto Feminino. Lá encontramos outros manifestantes que subiam pela Rua Politema de Baixo, todos em direção ao Campo Grande.
Chegando ao lado do Forte São Pedro, encontramos em uma das muralhas inúmeros cartazes com as mais diversas reivindicações. Já no Largo do Campo Grande percebemos a triste cena de uma quase guerra. Foi revoltante ver o monumento de 1894 do escultor Carlo Nicoli em homenagem ao Dois Julho, pichado. Nas escadas em mármore carrara tínhamos diversas pichações, e nas bases das esculturas e das luminárias também. Em seguida um pequeno grupo depredou as luminárias dos gradis laterais, e em outro ponto do Largo fizeram fogueiras e barricadas. O Campo Grande parecia estar sitiado.
Monumento ao Dois de Julho pichado.
Imagem: Tayse Argolo. Correio.

O Campo Grande na noite do dia 20 de Junho de 2013.
Imagem: Raul Spinassé | Ag. A TARDE.
 
Os manifestantes se dividiram em direção a Avenida Centenário, Vale do Canela e Corredor da Vitória. Ainda consegui acompanhar parte da manifestação na Orla da Barra indo em direção a Ondina. Alguns comentários mostram que no bairro de Ondina o protesto também foi reprimido, e outras pessoas falaram que parte dos manifestantes conseguiram chegar até o Rio Vermelho.
O 20 de Junho foi marcante na História de Salvador. Lembrei o 2003 e sua Revolta do Buzu. Infelizmente as ações repreensivas por parte da polícia, e os atos de depredação de alguns dos envolvidos nas manifestações, transformaram uma manifestação pacífica, em um cenário triste de um combate covarde. Falaram (não confirmado) que em determinado momento do trajeto, integrantes da Polícia Civil foram aplaudidos pelos manifestantes, por dar passagem a manifestação.
Contudo os tristes acontecimentos não podem jamais enfraquecer o movimento. Devemos seguir e continuar mostrando nossa força, perante um governo que maltrata seu povo, para oferecer a ilusão de um “circo” direcionado para poucos.



O “gigante” precisa continuar caminhando.


Não sou  favorável a depredação. Mas devemos olhar esse depoimento com muita atenção. Muito do que foi dito infelizmente é verdade:
http://www.youtube.com/watch?v=gWSGuHehdkE
Vídeo You Tube. Rosa Ribeiro - "Manifestação em Salvador: O Direito de Resposta"Manifestação Salvador Dia 22 de Junho:
http://rafaeldantasbahia.blogspot.com.br/2013/06/manifestacao-salvador-22-de-junho-de.html



*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do blog assinados por Rafael Dantas, Bahia. pode ser feita com a devida referencia do link, nome do autor dos artigos, e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas.