domingo, 2 de outubro de 2011

O Elevador Lacerda e sua História.

Especial: Símbolo maior de uma cidade, monumento cravado na rocha que representa um pedaço da História de Salvador e da Bahia. O Elevador Lacerda magnífico há décadas na encosta das ‘duas cidades’, atualmente (em 2001, quando o texto foi escrito) enfrenta o triste caminho do "descuido" e até mesmo da privatização.
Texto: Rafael Dantas.
História UFBA.
Nessa antiga imagem do final do século XIX podemos desfrutar a bela paisagem da Baía de Todos os Santos, com o movimente porto. À esquerda temos o antigo prédio da Alfândega - atual Mercado Modelo. Quase no centro da imagem a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia na Cidade Baixa. E a Direita o topo da antiga torre do Elevador Lacerda antes da reforma da década de 1930.
Imagem: Encontrada no site Skyscrapercity, sem informações de autor e data.
Em 1873 a velha cidade da Bahia receberia mais um grande monumento, além de suas belas e ricas igrejas. Seria a obra idealizada pelo engenheiro Antônio de Lacerda (1837-1885) o mesmo criador da Companhia de Transportes Urbanos, a primeira operadora de trens de Salvador.  A cidade que inicialmente tinha como privilégio o fato de ser uma espécie de “fortaleza”, devido a sua posição elevada em relação ao nível do mar, teria também alguns problemas, justamente devido ao deslocamento entre as duas cidades (alta e baixa) que só era possível graças as suas ladeiras e alguns guindastes existentes, sendo depois desativados. E na época da chuva essas ladeiras viravam um verdadeiro lamaçal dificultando e muito a ‘travessia’. Um elevador facilitaria a locomoção entre a cidade na época, ainda mais interligando o sistema de linhas de bondes: Calçada/Praça Cayru e Graça/Praça Municipal. As obras iniciadas em 1869 seriam inauguradas em Oito de Dezembro de 1873, mesmo dia da comemoração a Nossa Senhora da Conceição da Praia. O material da sua construção veio da Inglaterra, país que exportava outros materiais e produtos para a Bahia, e outras cidades do Brasil e mundo, destacando-se especialmente os belos gradis presentes em diversos casarões.  

Inicialmente funcionou com um sistema hidráulico, e fora chamado justamente de Elevador Hidráulico da Conceição, depois de Elevador do Parafuso. E só em 21 de julho de 1896 foi rebatizado com o nome do seu criador consagrando-se Elevador Antônio de Lacerda, tipicamente simplificado como Elevador Lacerda até hoje. É importante lembrar que foi por decisão do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) a troca do nome em 1896.
O antigo Elevador Lacerda, ainda hidráulico cercado pelo verde da encosta. O antigo Palácio do Governo que aparece no canto direito ainda não tinha sido reformado, isso só aconteceria depois do Bombardeio. Os prédios na parte baixa, onde atualmente temos a Praça Cairu seriam demolidos futuramente.
Fotografia: Rodolfo Lindemann em 1875.
No final do século XIX era o primeiro elevador público e mais alto já construído.

Em imagem (Postal) de 1920 o Elevador Lacerda em companhia com o Palácio do Rio Branco já é um dos destaques da bela paisagem da Cidade de Salvador.
Imagem: 1920 sem informação de autor.

O século XX acarretaria inovações para o conhecido Elevador. Em julho de 1906 precisou parar de funcionar devido às obras de eletrificação, e já no ano seguinte foi reinaugurado. Mas sua maior ‘mudança’ viria em 1930, e um novo estilo entraria em cena juntamente com os outros já existentes no Centro antigo de Salvador, especialmente na Praça Municipal e entorno. O eclético do Palácio do Rio Branco, e da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (ficava onde hoje está o atual prédio da Prefeitura de Salvador), e o neoromântico da Câmara dos Vereadores (antes da reforma da gestão (1961 -1967) do prefeito ACM, que retomou as antigas características coloniais do prédio), juntamente com os outros casarios em estilo colonial que ladeiam o Elevador, passariam a ter a companhia do estilo Art déco. O antigo elevador, esse cravado na rocha, que passa por baixo da ladeira da Montanha e sobe por dentro da encosta até a Praça Municipal, ganharia uma torre (a que está em frente da antiga estrutura) e seria ligada por uma passarela a outra torre já existente equilibrando as cabines. Assim, de duas cabines de 23 passageiros, passaríamos a ter quatro novas cabines com capacidade de 27 pessoas cada uma delas, trazendo um conforto a mais para os usuários da época. A nova obra fora inaugurada em primeiro de janeiro de 1930. Nesse período a propriedade do Elevador Lacerda era da Companhia Linha Circular de Carris da Bahia, e junto com o novo estilo ganharia também tais modernizações. 

A construção da nova torre e passarela ligando as duas estruturas do Elevador Lacerda inovando a paisagem de Salvador em 1930.
Imagem: Encontrada no site Skyscrapercity.

Segundo informações do arquiteto baiano Paulo Ormindo de Azevedo as reformas da década de 30 foram realizadas pela empresa dinamarquesa Christian-Nielsen, pioneira no emprego do concreto armado em grandes estruturas. Através da empresa dinamarquesa surge o convite para o arquiteto da mesma nacionalidade Fleming Thiesen, que realiza o projeto em concordância da Otis Company norte americana. No Brasil o escritório de arquitetura Prentice & Floderer do Rio de Janeiro ‘reajusta’ o projeto. O novo tratamento em Art déco parece está ligado aos princípios aerodinâmicos dos aviões que expressavam a velocidade do elevador que fazia o percurso de 60 metros em apenas 17 segundos.
O concreto armado traria novas características para a velha estrutura. Na década de 30 do século XX o Elevador Lacerda receberia sua aparência atual. Os casarões da parte baixa atualmente estão em ruinas.
Imagem: Encontrada no site Skyscrapercity, sem informações de autor e data.

Na década de 50 o Elevador Lacerda passou a fazer parte do patrimônio da Prefeitura Municipal de Salvador. E atualmente (2011) foi cogitada sua privatização pela gestão do Prefeito João Henrique.  
Décadas passariam até a revisão de toda a estrutura arquitetônica do Elevador. Isso só ocorreria no começo dos anos 80. Em sete de Dezembro de 1996 é Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e em 1997 recebe uma nova revisão nos equipamentos elétricos e eletrônicos, ganhando em setembro do mesmo ano iluminação cênica na gestão do prefeito Antônio Imbassahy.

Os “velhos” Guindastes de Salvador (Cidade da Bahia).

Azevedo¹ lembra que antes da construção do século XIX (o projeto de Lacerda) destacam-se: O Guindaste da Fazenda – Um plano inclinado, cuja primeira referência aparece em dezembro de 1609 (gravura guardada em Haia, Holanda), tendo função de transportar mercadorias do porto para a alfândega, situada na Praça do Conselho (atual Praça Municipal). Durante a ocupação holandesa em Salvador (1624-1625) ocorre o aperfeiçoamento duplicando suas trilhas e caçambas, criando um sistema contrabalançado.
Destaque também para as ordens religiosas que tiveram seus guindastes, para facilitar a construção e ampliação de seus conventos. O Guindaste dos Padres transforma-se no século XIX no atual Plano Inclinado Gonçalves. Os carmelitas com Plano Inclinado do Pilar. A Santa casa de Misericórdia também possuía um guindaste entre 1630 e 1690. O Convento de São Bento instalou o seu guindaste que sobrevive até 1813, e no Convento de Santa Tereza, José Antonio de Caldas em 1759 aponta a existência de um guindaste. A importância desses guindastes está relacionada entre outras coisas a expansão da cidade de Salvador, transportando vários materiais vindos do Recôncavo Baiano e outros lugares, sendo essenciais nas novas construções da capital baiana. No final do século XVIII já é visível a decadência e arruinamento desses guindastes. E já em 1860 uma fotografia panorâmica de Benjamin Mudock tomada do Forte do Mar (São Marcelo), confirma a desativação do sistema de guindastes da cidade. 
A fila na Cidade Baixa para pegar o Elevador Lacerda. Hoje a fachada de acesso ao elevador é outra.
Imagem: Encontrada no site Skyscrapercity, sem informações de autor e data.

Curiosidade. Os passageiros da estrutura do século XIX tinham que ser pesados antes de entrar nas cabines, devido ao limite máximo de segurança. Esse fato é relatado pelo Barão de Jeremoabo (Cícero Dantas): “Em 16 de março de 1889 pesamo-nos no elevador, dando o seguinte resultado: Pinho - 54 quilos ou 3 arrobas e 98 libras; Cícero  - 61 quilos, ou 4 arrobas e 2 libras; Guimarães – 65 quilos ou 4 arrobas e 10 libras; Artur Rios – 73 quilos ou 4 arrobas e 26 libras; e Vaz Ferreira – 115 quilos, ou 7 arrobas e 20 libras.”
Possuindo 73,5 metros de altura o belíssimo Elevado Lacerda é o principal meio de transporte entre a cidade alta e baixa, transportando 900 mil passageiros por mês (27 mil por dia), com passagem de 15 centavos.

 Devido aos tristes rumores de uma privatização tive a iniciativa de escrever esse artigo. É inadmissível concordar que a privatização seja a solução dos problemas do elevador. Primeiro que privatização não pode ser passada como solução de problemas ou a única saída. Segundo, se a prefeitura de Salvador não consegue gerir um Elevador, imagina uma cidade como Salvador. Falta sim é competência e responsabilidade, com as pessoas e com o patrimônio de uma cidade que aos poucos perde sua “labareda” do que restou da sua História.
Em fotografia da década de 60 o encontro entre as duas cidades Alta e Baixa de Salvador. E o Elevador Lacerda no centro.
Imagem: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/ Fundação Gregório de Mattos Prefeitura Municipal de Salvador.

***

*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas.

http://rafaeldantasbahia.blogspot.com/2011/10/o-elevador-lacerda-e-sua-historia.html


Referências e indicações:
SAMPAIO, Consuelo Novais. 50 anos de urbanização : Salvador da Bahia no Século XIX. Rio de janeiro : Versal, 2005.
TRINCHÃO, Gláucia. Do Parafuso ao Lacerda Marco da Tecnologia Baiana. Biblioteca Virtual 2 de julho:
http://www.bv2dejulho.ba.gov.br/portal/index.php/exposicoes-virtuais/elevadorlacerda.html
TRINCHÃO, Gláucia. O Parafuso: de meio de transporte a cartão postal. Salvador: EDUFBA 2010.

Patrimônio Histórico de Salvador: Um link entre o passado e o presente; Elevador Lacerda:http://patrimoniodesalvador.wordpress.com/category/elevador-lacerda/
¹ IPHAN: Elevador Lacerda, (arquiteto Paulo Ormindo D. de Azevedo):http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo.do?id=13933&sigla=Institucional&retorno=detalheInstitucional
Imagens Utilizadas:
1: Encontrada no site Skyscrapercity: Link não encontrado.
7: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/ Fundação Gregório de Mattos Prefeitura Municipal de Salvador.

2 comentários:

  1. A referência da a última foto estar errada.
    Correto seria: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/ Fundação Gregório de Mattos Prefeitura Municipal de Salvador.

    ResponderExcluir