quarta-feira, 12 de outubro de 2011

“A casa caiu”. Do tijolo da mansão ao futuro concreto do arranha-céu. Mansão Wildberger dos fundos da igreja para o noticiário Brasileiro.

Progresso? Sem Casarão, sem “baía” e com mais um desnecessário “espigão”. A polêmica demolição da Mansão Wildberger em estilo medieval alemão em solo baiano.

Texto: Rafael Dantas, Bahia.
História UFBA.

Os muros da Mansão Wildberger. Ao fundo o que sobrou da casa localizada nos fundos da Igreja da Vitória.
Imagem: Jornal A Tarde.
Atualmente o assunto em torno da polêmica demolição da Mansão Wildberger “esfriou” bastante. Desde o triste dia da demolição até recentemente os entulhos e as ruínas do antigo casarão foram substituídos mais uma vez por máquinas. Agora não só para demolir o que restou, mas para acabar o que tivera começado anos atrás. O mais triste é saber que casas de grande valor histórico e arquitetônico vêm sendo demolidas no Corredor da Vitória (Bairro da Vitória), no Bairro da Graça, e em outras localidades da capital baiana [como pode ser visto no Blog em postagens anteriores], que ainda "preservam" o resto do patrimônio que existe em Salvador.

História da Mansão Wildberger.

A história da mansão confunde-se com a própria história do bairro da Vitória e da Graça, já que essas  regiões começaram a receber estrangeiros e membros da elite econômica da Bahia, que decidiram fixar residência fugindo do já ‘tumultuado’ centro da capital baiana. Esses novos moradores, na verdade uma "nova" burguesia crescente na capital baiana, construíram verdadeiros palacetes que já embelezaram e muito esses bairros, inclusive dando a fama ao lugar. Tais características são marcantes afinal estamos falando de um novo momento na urbanização e na arquitetura da capital baiana. Inclusive mexendo com interesses políticos e econômicos do governo da época de J. J. Seabra, isso nas primeiras décadas do século XX.

Antes do atual casarão (Mansão Wildberger) tínhamos nos fundos da Igreja da Vitória, onde se localiza a residência, um imóvel do século XIX onde funcionava o Hotel Bom Sejour. Na época hospedava principalmente comerciantes e visitantes europeus, entre eles, suíços e alemães. No ano de 1937 o imóvel (hotel) daria lugar à mansão da família Wildberger. Segundo informações retiradas do Instituto Goethe (no Corredor da Vitória)¹ o nome da família faz referência a uma pequena vila alemã que fica perto de Stuttgart. Devido às turbulências do século XVII-XVIII, os Wildberger migraram da Alemanha para a Suíça onde fixaram residência. Mas é só no final do século XIX que uma firma importadora de cacau suíça contratou Emil Wildberger, avô da família baiana, para trabalhar com compra de cacau na Bahia. E na Bahia os empreendimentos da família cresceram, e a firma Wildberger passou a ser a maior de todas as exportadoras, tornando-se líder do mercado até o começo da década de 50 do século XX. Emil Wildberger faleceu em 1946, passando o comando para os filhos.

Imagem da Mansão Wildberger, em desenho feito por Rafael Dantas em 30 de março de 2007.
Imagem (desenho): Blog Rafael Dantas, Bahia.

A mansão que até pouco tempo existia possuía forte inspiração na arquitetura medieval alemã, com jardins ingleses e uma bela área verde, além de espetacular vista para a Baía de Todos os Santos - grande privilégio, mas reservado para poucos.
Atualmente a mansão era reservada para eventos, o que foi quebrado pelo som da demolição no marcante dia 28 de janeiro de 2007. Internamente a mansão possuía as mesmas características medievais alemãs da parte externa, com a presença de corrimões em ferro nas escadas, gradis e lustres, vigas em madeiras em alguns cômodos, azulejos decorados, portas redondas, mobiliário antigo de tonalidade escura e espelhos e molduras douradas. A escada circular que dava a volta na salão de entrada - com um grande lustre em ferro pendurado - era um dos destaques. Existem imagens internas da mansão nesse site sobre casamento: [Mansão Wildberger].

Ponto mais que cinematográfico nesse caso foi à ação das máquinas que trabalharam quase às escondidas levando abaixo a fachada e parte do telhado da mansão. O barulho da demolição chamou a atenção dos moradores do local, que ligaram reclamando o ocorrido, já que o barulho excessivo passou dos 72 decibéis; só assim veio à tona o caso da destruição da mansão. Para se ter uma ideia da desorganização e da "culpa" dos responsáveis, já que o IPHAN não tinha autorizado a demolição, o impensável acabou acontecendo. Como já é sabido por muitos quando uma casa é demolida pouco é retirado de sua estrutura, e esse pouco se resume a parte interna: mobília e outros objetos; desta forma gradis e outros elementos decorativos envoltos na construção, ficam a mercê de serem destruídos. No caso da vergonhosa demolição da mansão Wildberger, nem os móveis, cortinas e outros elementos decorativos foram retirados.

Acreditem, no dia da demolição o que ocorreu foi um dos maiores saques conhecidos na capital baiana. Depois que as máquinas pararam devido a chegada da SUCOM as 15h20, algumas pessoas entraram na propriedade e começaram a levar o que encontravam pela frente. E o mais incrível foi que na casa, que deveria ser demolida, caso as máquinas não tivessem sido paradas, estava recheada de móveis, inclusive de algumas antiguidades. Cortinas das salas do imóvel, utensílios domésticos e objetos de decoração dos eventos que ocorriam no lugar, tiveram a partir daquele momento outro destino; diferente da destruição ou mesmo do seu antigo lar. Fato mais incrível foi à descoberta de um anexo da casa (parecido com uma garagem) que teve suas portas abertas, e lá descobriram o “melhor”; aparecia: camas, mesas, cômodas, cadeiras e outros móveis antigos, de vários estilos e alguns, segundo algumas pessoas que estavam no lugar, de Jacarandá; sendo carregados por diversas pessoas. Tal fato não só da um toque quase "cinematográfico" ao triste episódio, como também alerta para a necessidade de se destruir o imóvel sem que ninguém ficasse sabendo; afinal se caminhões de mudança tivessem saídos da propriedade poderiam levantar a suspeita de moradores e atentos. A Polícia Militar chegou e evacuou a mansão para evitar acidentes nos escombros. A demolição da Mansão Wildberger ganhou projeção nacional, alguns sites compararam o acontecimento baiano com a demolição da Mansão dos Matarazzo em São Paulo.
Nessa Imagem do site da Rádio Metrópole podemos observar a vegetação cobrindo os escombros da mansão. Mais uma prova do absurdo, tanto da demolição sem autorização quanto do desrespeito ao patrimônio visual do entorno da Igreja da Vitória. 

Vale lembrar que a Igreja da Vitória foi tombada provisoriamente pelo IPHAN. Com isso seu entorno passaria também a ser tombado incluindo: a mansão, o prédio das clínicas CATO (hoje desfigurado), Aliança Francesa e outros edifícios, inclusive ao longo Avenida Sete, isso em 2005.

Lembrando, o Corredor da Vitória não tem seu patrimônio arquitetônico protegido.
Em especial no caso da Mansão, temos outra questão importante que é justamente a paisagem que ela compõe. Devemos lembrar que a casa fica atrás da Igreja da Vitória e no fundo da casa temos justamente a Baía de Todos os Santos, ou seja, se um prédio for construído atrás da Igreja da Vitória teremos a desfiguração da paisagem quase que "original" do único pedaço visível da Baía de Todos os Santos nessa região (Vitória - Campo Grande). Repetindo o mau exemplo da construção do Morada dos Cardeais no Campo Grande, que desfigurou a paisagem tanto da praça e do caboclo, como da Baía de Todos os Santos.

Se hoje a mansão deu “adeus” imagina os outros casarões históricos da Avenida Sete de Setembro (Corredor da Vitória) que não tiveram a mesma comoção midiática. [Ainda será abordado nesse blog o que aconteceu com os prédios tombados provisoriamente pelo IPHAN. Já posso afirmar que pelo menos um chalé foi demolido, ficava ao lado onde funcionava o curso de inglês UEC, onde hoje temos uma concessionária da Honda no Corredor da Vitoria, clique aqui para ver o artigo].

Obviamente o destino do terreno não é nenhuma novidade. Assim como em grande parte da Cidade de Salvador avanço desordenado do mercado imobiliário está destruindo o verde da Avenida Paralela (como pode ser visto em artigo publicado neste blog) e demolindo o que sobrou dos palacetes e chalés da Vitória. Se por um lado temos o aumento de empregos, por outro temos o terrível avanço sobre o que hoje é simplesmente descartado.

Vários projetos já foram divulgados sobre o empreendimento que será lançado nos fundos da Igreja da Vitória no terreno da Mansão Wildberger, mas por enquanto não foram oficializados (já foram!). Segundo rumores o valor do apartamento mais caro está na faixa dos 10 milhões, sendo um dos empreendimentos mais luxuosos e caros do nordeste brasileiro.
Imagem de um dos projetos da Mansão Wildberger, onde o edifício ficaria no lugar da mansão. É possível observar o choque com o verde.
Imagem:
Encontrada no site Bahia Negócios. 

O mais incrível está justamente na incompetência dos órgãos públicos que não tomam medidas que preservem imediatamente o que sobrou do antigo Bairro da Vitória e sua memória visual. Já sabemos que em Salvador temos vários exemplos de irresponsabilidade, é só olhar o metrô e teremos aquilo que tanto nos envergonha. Dessa vez estão esperando que todos os casarões da Vitória, Graça e demais localidades, sejam demolidos para ai sim preservarem o que não existe mais.

Hoje vem abaixo a Mansão Wildberger e grande parte dos exemplos de casarios de finais do XIX e início do XX da capital baiana. Em 1933 a primeira Sé do Brasil fora “assassinada” por conta de um falso progresso. E no futuro o que resta de um ‘resto’ decaído, submerso no avanço imobiliário, desaparecerá sem deixar adeus. E sim um fraco e melancólico som de tijolos e madeiras caídas ao chão da elite econômica de uma “velha Bahia, que tenta se modernizar sem saber o sentido de tal palavra.
Nesse projeto da Mansão Wildberger, o casarão seria preservado, e os prédios erguer-se-iam nos fundos da propriedade. É visível o impacto com a paisagem da Baía ao fundo.
Imagem: Encontrada no site Skyscrapercty.

***


Referências:

Terra Magazine: Texto escrito pelo professor da Escola de Belas Artes da UFBA: Luiz Alberto Ribeiro Freire. E pela arquiteta Alejandra Hernández Muñoz: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1396954-EI6581,00.html
Jornal A Tarde: Boa parte das matérias consultadas fazem parte do acervo pessoal do autor. http://atarde.uol.com.br/noticias/1266424
CREA-BA: http://www.creaba.org.br/Artigo/74/Urbanismo--A-Lei-foi-ao-chao.aspx
Jus Brasil: http://a-tarde-on-line.jusbrasil.com.br/noticias/1936847/mpf-ba-apela-para-retomada-de-processo-da-mansao-wildberger

Imagens: alguns links não estão direcionando para o destino correto, talvez devido o tempo de publicação. No site Skyscrapercity em postagem de calom.neto, temos as imagens 4 e 5: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=962644
Fotos da Mansão Wildberger por dentro: http://casamentao.nafoto.net/photo20060118214918.html

Notas:1. A informação sobre a família Wildberger foi retirada de um cartão informativo presente em uma exposição no Instituto Goethe: http://www.goethe.de/ins/br/sab/ptindex.htm?wt_sc=bahia. 

*Atenção. A divulgação dos textos e imagens do Blog só pode ser feita com a devida referência do link, nome do autor dos artigos e nome do Blog. Atenciosamente Rafael Dantas.

12 comentários:

  1. ...gostei da reportagem aprofundada... repudio esta demolição, esta agressão à memória da cidade...

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  2. Obrigado. Pois é, mais um grande absurdo da nossa historia recente. As coisas acabam acontecendo e nada é feito para mudar!

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  3. Muito boa a matéria, não tive conhecimento do caso,realmente é uma lástima.O setor imobiliário está acabando com a cidade em nome dessa "coisa" chamada progresso,que só os beneficiam!não respeitam nada, acredito que os órgãos públicos responsáveis fizeram vista grossa para o casa.não é possível que ninguém sabia da demolição.

    gostei muito da matéria, parabéns!

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    1. Obrigado Larissa.

      Hoje a Bahia em geral, e até mesmo o Brasil vive em tempos de “propaganda”, daquilo que deve ser feito, que deve ser protegido, etc. Mas na verdade nada em ação é concretizado; tudo não passa de um factóide

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  4. Rafael,
    Retribuindo sua visita ao meu blog (Chega de Demolir S!P).

    É com tristeza que vemos dia a dia essas demolições nas cidades brasileiras. Como você mesmo comentou, ainda bem que temos nós - entre outras pessoas -, que damos esses gritos de alerta. Talvez não tragam estas construções novamente, mas fica nossas indignações.
    Se em São Paulo - a cidade mais rica da federação - acontecem esses absurdos dia a dia, imagine em outros municípios que sequer tem leis de preservação. Abraços e parabéns por seu trabalho.

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    1. Verdade Hélio,
      É muito triste.
      E vamos continuar a mostrar esses absurdos.

      Obrigado e parabéns.

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  5. As pessoas confundem o publico com o privado ! , que representa esta casa para a historia da Bahia ou Salvador ? , mostra um sucesso empresarial de uma família e só , o que tem de valor é a localização privilegiada do alto da Vitoria a qual de casarão preservado tem umas 3 ou 4 e com prédios nos seus domínios , é muita hipocrisia pessoas se meterem com a vida dos outros como um IPHAM e outros que acham , repito acham que deve ser feito numa propriedade privada , e pagam o que para isto ? , nada tomba-se , invasão covarde do estado que não consegue dar educação e cultura ao povo mas rouba dele direitos e haveres .
    Criticar riquezas é fácil , difícil é impedir o crescimento desenfreado das favelas , ahh, existem perto deste local varias invasões onde os moradores tem no seu seio , pescadores que usam bombas , matando e devastando a fauna marinha , ai vem um babaca comentar , é caso para o IBAMA ! , tenho de rir .
    Se o Ipham olhar para as encostas de Salvador deveria fazer o mesmo na Ladeira da Montanha , e faz o que ? , Santo Antonio do Carmo faz o que ? e a Liberdade que tem encostas faveladas penduradas com esta localização privilegiada e não tombam ? , por que ? , la tem muitas historias muito mais relevantes , como a da Independência da Bahia onde esta guardado o Caboclo que sai nas festas de 2 de julho ?
    Hipocrisia tem de ser repudiada .

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    1. Kadu

      Não entendi em que sentido seu comentário se relaciona com meu texto. Então vamos por partes.

      Sei muito bem o que é público e o que é privado. Assim como sei o que são as leis, o que deveríamos preservar e o que deve ser tombado ou entendido como de importância para a história da Cidade, nesse sentido acredito que temos e muito que sensibilizar as pessoas.

      Em nenhum momento critiquei riquezas ou o sucesso empresarial de terceiros, não sei de onde tu tirou essa colocação, o ponto de análise crítica desse artigo é que mais um prédio, entre muitos, será construído em uma área com vários imóveis tombados, como a Igreja da Vitória, ou que deveriam ser tombados, como os poucos palacetes do Corredor da Vitória, que são símbolos das transformações urbanas da Cidade do Salvador. Esse texto, pensei que estava bem claro, aborda como construções importantes, e seus entornos históricos, são destruídos para construção de mais prédios. Triste de um povo que não valoriza e não preserva seu patrimônio.

      Recomendo que você analise algumas fotografias, litografias e desenhos, de como era Salvador no final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, o que sobrou desses casarios, palacetes e mansões, e como esses empreendimentos prejudicam o visual desses sítios históricos.

      Atenciosamente.

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  6. Olhem o pelourinho, aliás todo centro antigo de salvador,, imóveis em ruínas, reduto de traficantes e usuários de dr. E o IPHAN simplesmente deixa pegar fogo, sucateia. Tem que ser revisto isso.
    Os prédios estão abandonados, e ninguém pode reformar, por conta da burocracia.

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    1. Infelizmente temos várias situações problemáticas.

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  7. Artigo muito interessante. Conheco o local e achei um absurdo o que aconteceu (demolicao) e mais absurdo e o predio que esta em fase final de construcao, que agride cruelmente o meio ambiente local e a paisagem da cidade de Salvador. Mas enfim quem autorizou a demolicao e a construcao do predio??? a SUCOM esteve la fazendo o que??? E o IAB? O CREA? O MP? a SUCOM? o IPAC? IPHAN? Quais foram as manifestacoes a respeito??? etc Porque a obra nao foi embargada? Acho que este tema deveria ressurgir para discussao inclusive nas redes sociais como foi o caso do La Vue que so viralizou nas redes sociais depois da saida do Ministro da Cultura do governo...Mas como este caso nao houve Ministro se afastando por nao querer participar de maracutaia o silencio permanence... As unidades do predio ja estao quase todas comercializadas e seria interessante saber quem comprou! Seria um dos proprietarios Geddel? ai ai..

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